O artigo discute as transformações históricas na organização do trabalho a partir da experiência das vilas operárias brasileiras. Argumenta-se que essas vilas configuraram uma forma particular de articulação entre trabalho, moradia e vida social durante o processo de industrialização no país. Desde o final do século XIX, muitas empresas, para além da atividade produtiva, responsabilizavam-se pela construção de parte significativa da infraestrutura local, também como estratégia de atração e fixação da força de trabalho. A cobrança de aluguel, a oferta de serviços e a presença constante da empresa reforçavam sua centralidade na vida dos moradores e trabalhadores, sobretudo em regiões pouco urbanizadas. Nesse contexto, trabalho e vida cotidiana encontravam-se diretamente vinculados, articulando estabilidade e conformando formas específicas de pertencimento territorial e identidade coletiva. A proximidade entre moradia e trabalho estruturava rotinas, organizava relações de vizinhança e participava da construção de laços coletivos ancorados na experiência compartilhada. Entende-se que essa experiência revela a existência de um regime territorial de integração do trabalho, no qual produção e reprodução social eram organizadas de maneira articulada no espaço. Ao concentrar emprego, moradia e infraestrutura sob a mesma direção empresarial, esse arranjo estruturava formas específicas de regulação laboral, ancoradas na proximidade física e na centralidade da empresa na vida local. Nas últimas décadas, no entanto, o processo de desintegração dessas vilas, a dissociação entre emprego e moradia e a diminuição do papel empresarial na organização da vida comunitária indicam mudanças na forma como o trabalho se organiza e se territorializa no Brasil. Dito isso, a partir da abordagem da sociologia do trabalho e por meio de pesquisa bibliográfica, o artigo revisita a experiência das vilas operárias com o objetivo de compreender processos históricos de integração do trabalho no território e suas implicações para o debate contemporâneo sobre as transformações do trabalho no século XXI.
Referências
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