"Operários de Brumadinho" e a resistência através da arte

Evento: 14º Seminário Nacional de Sociologia e Política
Atividade/GT: GT 4 - Sociologia da Cultura
Atualizado em: 28/04/2026

Autoria
Autor(a): Maria Eduarda Dutra Castanho
Resumo
A preocupação em produzir uma arte socialmente engajada é comum a diversos artistas. Entretanto, também existem críticos de arte e artistas que defendem a necessidade da arte se afastar da “panfletagem”, desvalorizando produções que trazem a defesa de valores comunitários, o que acaba por incentivar o individualismo. Nesse contexto, o trabalho de Mundano se destaca justamente pela defesa do coletivo e da denúncia de injustiças através da arte. Em 2020, o artista visual e grafiteiro pintou um mural de 800 m² em homenagem às vítimas do rompimento da barragem em Brumadinho, Minas Gerais, ocorrido em 2019. Esse trabalho é um recorte de uma pesquisa em andamento e almeja analisar o mural “Operários de Brumadinho” e o contexto socioambiental em que ela está envolta. Trata-se de uma releitura da pintura canônica “Operários” de Tarsila do Amaral, feita na lateral do Edifício Minerasil, centro histórico de São Paulo. Mundano participou dos protestos em Brumadinho que clamavam por justiça e levou consigo para São Paulo 250kg de lama proveniente do rompimento. Com a lama, Mundano e sua equipe produziram uma tinta que foi usada na pintura do mural em questão. A lama e o solo variavam de tonalidade naturalmente e a partir dessa matéria prima foram obtidos 15 tons de tinta. A lama foi misturada com água, peneirada repetidamente e em seguida foi adicionado base acrílica incolor, resultando em 270 quilos de tinta. O mural foi realizado com autorização, mas isso não garante sua permanência, visto que São Paulo tem um histórico de apagar diversos murais e graffitis autorizados. A efemeridade é uma característica desses segmentos de arte. O registro audiovisual do processo de pintura e divulgação dos resultados nas redes sociais do artista e em reportagens disponibilizadas online são ferramentas importantes para amplificar o acesso de pessoas que não moram em São Paulo, ou no Brasil, a esse trabalho. Os impactos do rompimento foram diversos, complexos e diferentes em determinadas regiões em função da distância do epicentro do mesmo. A água foi contaminada por metais pesados, o que ocasionou na limitação de seu uso, seja para abastecimento dos seres humanos ou dos outros animais. Houveram também alterações morfológicas no sistema fluvial e mortandade da biota aquática (como peixes e anfíbios) e terrestre. Centenas de vidas foram ceifadas, houve a perda da capacidade produtiva do pequeno agricultor e alteração do modo de vida de comunidades tradicionais, além de danos psicológicos, doenças de veiculação hídrica e proliferação de animais vetores de doenças. O mural “Operários de Brumadinho” corporifica essa memória traumática estampando ela no coração da cidade mais populosa da América Latina. A memória é uma ferramenta política, iniciativas como essa ajudam a manter a história viva e ampliam a voz de quem clama por justiça.
Referências
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