Autoria
Autor(a): Ágatha Gabrielle Menezes Lobo
Coautores: Amália Tatyane Pinto da Silva, Andréa Bittencourt Pires Chaves
Resumo
Esta pesquisa aborda as condições de trabalho das costureiras no contexto do capitalismo de plataforma, com foco nas mudanças nos direitos trabalhistas e na reestruturação produtiva no setor de confecção de vestuário. Parte-se do entendimento de que o setor tem incorporado novas formas de organização do trabalho marcadas pela precarização, tornando-se relevante para compreender a perda de garantias legais quando costureiras passam a se vincular a plataformas digitais para divulgar seus serviços e estabelecer contato com clientes. Nesse cenário, a exploração frequentemente se apresenta sob o discurso do “empreendedorismo”, que tende a ocultar condições desfavoráveis, como instabilidade de renda, ausência de proteção social e transferência dos riscos produtivos às trabalhadoras. O estudo também buscou compreender a dinâmica da produção sob demanda e a substituição do contrato formal pela informalidade, evidenciando transformações nas relações laborais contemporâneas.
Como objetivo, a pesquisa analisa como essas mudanças afetam as experiências das costureiras, considerando suas trajetórias no sistema fabril e a utilização do espaço domiciliar como local de trabalho, além das motivações que as levam a adotar tecnologias e plataformas virtuais como estratégias de inserção e permanência no mercado. Para isso, estabeleceu-se diálogo com as vivências das trabalhadoras, articulando dimensões materiais e subjetivas do trabalho no setor.
Do ponto de vista teórico-metodológico, o estudo fundamenta-se na teoria crítica marxista, complementada por levantamento empírico, com entrevistas semiestruturadas realizadas com duas interlocutoras, análise documental sobre a fabricação no setor de vestuário e investigação de aplicativos de divulgação e comercialização online, essa abordagem permitiu examinar tanto a organização do trabalho no chão de fábrica quanto as formas de mediação digital da costura.
Os resultados indicam que o controle do tempo e dos movimentos permanece central na organização fabril, sob lógica taylorista-fordista, caracterizada por produção em série, metas diárias e fiscalização do ritmo produtivo, com tarefas distribuídas conforme o maquinário disponível. Nesse viés, evidenciou-se que muitas trabalhadoras improvisam em diferentes etapas do processo, acumulando funções e intensificando o ritmo de trabalho, o que é interpretado como proatividade, mas relaciona-se a exploração e medo de demissão. Foram identificadas ainda condições precárias de infraestrutura, como iluminação insuficiente e mobiliário inadequado, que contribuem para desgaste físico e adoecimento mental.
Observou-se também a presença significativa de mulheres na profissão, marcada por influências familiares e culturais que associam historicamente a costura ao universo feminino, e que apesar da identificação subjetiva com a atividade, a baixa valorização econômica torna desafiadora a sobrevivência exclusiva da profissão. Deste modo, conclui-se que a vinculação às plataformas digitais insere as costureiras em regimes de trabalho por demanda, nos quais redes sociais e aplicativos ampliam a visibilidade, mas reforçam informalidade, instabilidade e responsabilização individual, evidenciando as contradições entre a promessa de autonomia e a intensificação da precarização no capitalismo de plataforma.
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