O presente trabalho analisa a necropolítica como racionalidade estruturante das políticas de segurança pública e da justiça criminal no Brasil, com foco no discurso punitivista “bandido bom é bandido morto”. Tal formulação, mobilizada por setores da extrema-direita, opera como mecanismo de legitimação da violência estatal. Argumenta-se que esse discurso incide seletivamente sobre sujeitos marginalizados, convertendo corpos específicos em ameaças à ordem. À luz de Butler (2004), compreende-se que essas são “vidas precárias”, cuja vulnerabilidade é politicamente produzida e cuja perda não é socialmente reconhecida como digna de luto, tornando-as passíveis de eliminação pelo Estado.
Parte-se da hipótese de que o punitivismo funciona como tecnologia necropolítica ao autorizar a suspensão de direitos fundamentais baseada em marcadores de cor, classe e território. A noção de “bandido” é construída socialmente: enquanto indivíduos racializados das periferias são enquadrados como inimigos elimináveis, agentes econômicos que financiam o crime organizado permanecem fora do alcance letal do Estado. Essa gestão diferencial da vida é corroborada pelos dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2024), que revelam a seletividade e a alta letalidade das intervenções estatais.
O referencial teórico articula a necropolítica à crítica do punitivismo e à moralidade pública. A partir de Nussbaum (2013), percebe-se que a erosão da empatia cívica fragiliza os compromissos democráticos, criando um ambiente moral onde a morte de determinados sujeitos é aceita em nome da segurança. A pesquisa Quaest (2025) ilustra esse cenário ao revelar a ampla aprovação popular à megaoperação nos Complexos da Penha e do Alemão (RJ), em outubro de 2025. O dado evidencia como o medo e o desejo por punição são instrumentalizados politicamente para preservar privilégios estruturais.
Metodologicamente, adota-se uma abordagem qualitativa baseada na análise crítica de discursos e narrativas institucionais. Conclui-se que essa lógica compromete o sentido democrático da segurança ao transformar sujeitos de direitos em inimigos. Adicionalmente, sob a ótica de Ana Suy (2022), o discurso “bandido bom é bandido morto” atua como operador subjetivo do ódio, oferecendo uma resposta simplificadora ao mal-estar social e deslocando conflitos estruturais para o campo penal. Assim, a justiça criminal passa a normalizar a morte, rompendo com a compaixão política proposta por Nussbaum (2013). A necropolítica consolida-se, portanto, como racionalidade de governo, comprometendo os fundamentos do Estado Democrático de Direito.
Referências
BUTLER, Judith. Vida precária: o poder do luto e da violência. Tradução de Beatriz Sant’Anna. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2019.
G1 RIO DE JANEIRO. Quaest: 64% dos moradores do RJ aprovam megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha. G1, Rio de Janeiro, 01 nov. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2025/11/01/quaest-64percent-dos-moradores-do-rj-aprovam-megaoperacao-nos-complexos-do-alemao-e-da-penha.ghtml
. Acesso em: 25 fev. 2026.
NUSSBAUM, Martha C. Emociones políticas: ¿Por qué el amor es importante para la justicia? México: Paidós, 2014.
SUY, Ana. A gente mira no amor e acerta na solidão. São Paulo: Paidós, 2022.
SUY, Ana. Eu só existo no olhar do outro? Rio de Janeiro: Autêntica, 2025.