Migração interna no Brasil: desigualdades, poder e cartografias de pertencimento

Evento: 14º Seminário Nacional de Sociologia e Política
Atividade/GT: GT 2 - Migrações Internacionais e Fronteiras
Atualizado em: 21/05/2026

Autoria
Autor(a): Flavio William Silva Costa
Resumo
Este ensaio teórico conceitual analisa a migração interna no Brasil com foco nos fluxos Norte Sul e articulação entre desigualdades regionais, governamentalidade, biopolítica, necropolítica, interseccionalidade e redes de pertencimento. A partir de autores como Foucault, Mbembe, Butler, Brah, Spivak e Milton Santos, o estudo mostra que a migração não se limita ao deslocamento físico, pois constitui prática social moldada por racionalidades políticas, disputas simbólicas e hierarquias históricas. A pesquisa também indica que “a migração interna brasileira para além do movimento, é também permanência, deslocamento e continuidade” e essa formulação orienta a compreensão de que trajetórias migrantes se formam dentro de estruturas que organizam expectativas e posições sociais.

As desigualdades regionais que marcam o país desde sua formação estruturam decisões e trajetórias. Elas aparecem na distribuição desigual de investimentos, na concentração de oportunidades e na produção de imagens que associam certas regiões ao progresso e outras ao atraso. O texto observa que “a desigualdade regional continua sendo um dos elementos centrais para compreender por que tantos sujeitos deixam suas cidades e Estados” e essa constatação reforça que a migração interna funciona como resposta a essas diferenças e também como parte do processo que as mantém.

A análise interseccional evidencia que raça, gênero, classe e origem regional moldam a inserção ocupacional. Migrantes negros, indígenas, mulheres e pessoas lgbtqiapn+ enfrentam barreiras que limitam o acesso a empregos formais e a condições estáveis. As análises destacam que “migrantes nortistas enfrentam processos de estigmatização” e que essas marcas sociais influenciam suas possibilidades de inserção. A precarização do trabalho, a informalidade e a invisibilidade das experiências migrantes compõem um cenário no qual a mobilidade se torna limitada por estruturas que persistem.

As redes sociais de apoio funcionam como mecanismos de sustentação e orientação, mas também criam hierarquias internas que definem oportunidades e limites. O texto afirma que essas redes “oferecem informações, acolhimento, suporte emocional e material, mas também estabelecem limites” e essa ambivalência mostra que pertencimento e desigualdade caminham juntos.

Embora o ensaio trate da migração interna, é possível estabelecer relação com processos internacionais. Em ambos os casos, deslocamentos se formam dentro de estruturas de poder que regulam corpos, classificam populações e produzem vulnerabilidades. A gestão da mobilidade, seja dentro de um país ou entre países, envolve racionalidades estatais, expectativas de futuro e disputas por reconhecimento. As semelhanças aparecem na segmentação ocupacional, na racialização das oportunidades e na produção de vidas consideradas menos protegidas.

O estudo destaca ainda os impactos da mobilidade sobre a saúde mental, agravados pela ruptura de vínculos, discriminações e condições de vida precarizadas. A partir dessas análises, defende a necessidade de políticas públicas que reconheçam a complexidade das trajetórias migratórias e enfrentem as múltiplas dimensões das desigualdades que estruturam o país.
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