Este trabalho apresenta uma reflexão em forma de relato sobre meu ingresso, ainda no início da vida adulta, como professor efetivo de Sociologia na Secretaria de Estado da Educação de Santa Catarina. Ao assumir a docência na rede pública estadual, passo a experimentar simultaneamente dois processos: a transição pessoal para a vida adulta e a inserção profissional em um campo atravessado pelas reformas do Ensino Médio, tanto nacionalmente, quanto a nível estadual. Tornar-se professor concursado, nesse contexto, é mais do que alcançar estabilidade; é como adentrar um espaço permeado de disputas sobre o sentido da escola, do currículo e da própria sociologia.
Ao mobilizar esse relato de ingresso na educação pública catarinense, busco articular experiência pessoal e análise sociológica, entendendo minha trajetória não como relato individual isolado, mas como expressão de processos mais amplos que atravessam a docência na educação básica contemporânea. O início da carreira, vivenciado simultaneamente como conquista profissional e enfrentamento das condições concretas do trabalho docente, explicita as contradições entre o discurso público de valorização da educação (a níveis estadual e nacional) e a realidade prática vivenciada nas escolas.
Isso porque no estado de Santa Catarina, esse início da carreira se dá em meio a expectativas sociais ambíguas: de um lado, o discurso de valorização da educação; de outro, condições concretas de trabalho marcadas por reorganizações, demandas administrativas e instabilidades próprias de um período de transição. Como jovem docente, encontro-me entre a energia da formação recente, os ideais construídos na universidade (pública e federal) e a realidade prática do chão de escola.
Argumento que ingressar hoje na carreira docente da rede pública implica habitar esse espaço de transição: entre reformas administrativas e permanências de questões fundamentais que permeiam o espaço escolar; entre precarizações de trabalho e possibilidades outras de ensino, de aprendizagem e de exercício da profissão docente. Entre ser recém-formado e tornar-se referência para estudantes; entre aprender a ser professor e defender o lugar da disciplina no currículo; entre projetos individuais de futuro e responsabilidades coletivas na formação de uma juventude em seu próprio tempo e espaço, perfazendo as diferenças e questionando o quanto também faço parte dessa juventude e o quanto me diferencio dela. E talvez, a partir disso, se ancorar nesse cotidiano escolar entendendo-o como campo fértil para a mediação crítica entre política educacional e prática pedagógica do dia a dia.
Assim, este trabalho busca contribuir para o debate sobre a sociologia na educação básica ao tensionar, desde a experiência situada de um jovem docente, o que significa iniciar a carreira pública em um momento de reconfiguração curricular, juventudes contemporâneas e disputas sobre os futuros e os sentidos possíveis da escola.
Referências
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DUBET, François. Sociologia da Experiência. Lisboa: Instituto Piaget, 1994.
DUBET, François & MARTUCELLI, D. En la escuela: sociología de la experiencia escolar. Buenos Aires: Losada, 1996.
FERREIRA, Fátima; CARNEIRO, Silvane. Nem tudo que é social é sociológico: sociologia e senso comum na escola básica. In: HANDFAS, A.; MAÇAIRA, J. P. Dilemas e perspectivas da Sociologia. Rio de Janeiro: E-papers, 2012.
SILVA, Ileizi Luciana Fiorelli. O ensino das Ciências Sociais. Sociologia no Brasil: histórico e perspectivas. In: MORAES, Amaury (coord.). Sociologia: Ensino Médio. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria da Educação Básica, 2010. Coleção Explorando o Ensino. V. 15. p. 15 – 44.