O Paradoxo do "Berço das Águas": Injustiça Ambiental e Vulnerabilidade em Piraquara-PR

Evento: 14º Seminário Nacional de Sociologia e Política
Atividade/GT: GT 17 - Ruralidades, Meio Ambiente e Emergências Climáticas
Atualizado em: 21/05/2026

Autoria
Autor(a): ROBERTO TEOBALDO VALIM
Resumo
Este artigo investiga as disparidades no acesso ao saneamento básico em Piraquara, município estratégico da Região Metropolitana de Curitiba (RMC). Embora reconhecida como o “berço das águas” por abrigar os mananciais que abastecem a capital paranaense, a cidade vive um profundo paradoxo socioambiental: ao mesmo tempo que “exporta” água tratada para a metrópole, uma parcela significativa de sua população local permanece privada de redes regulares de abastecimento e esgotamento sanitário.
A investigação ancora-se nos pressupostos da Geografia Socioambiental e da Justiça Ambiental para compreender como a proteção dos recursos hídricos tem se convertido, no plano local, em mecanismos de exclusão social. Parte-se da premissa de que o território piraquarense não pode ser analisado sob uma ótica puramente ecológica. Conforme argumenta Francisco de Assis Mendonça (2001), a problemática ambiental contemporânea exige que a Geografia considere o natural e o social como elementos de um mesmo processo. Essa perspectiva permite interpretar Piraquara para além de sua função biofísica de manancial, compreendendo-a como um espaço produzido por dinâmicas humanas e naturais indissociáveis.
Nesse contexto, as legislações de proteção ambiental — embora cruciais para a resiliência climática regional — acabam por impor restrições ao uso do solo que, muitas vezes, negligenciam as demandas infraestruturais das zonas periféricas. Tal dinâmica fomenta a chamada “produção social do risco”, limitando investimentos e regularizações indispensáveis à universalização do saneamento. A análise dialoga com o conceito de Injustiça Ambiental, formulado por Henri Acselrad (2002), ao evidenciar a distribuição desigual dos ônus e benefícios ambientais: em Piraquara, o custo da conservação — materializado em precariedade urbana e déficit sanitário — recai sobre os grupos mais vulneráveis, enquanto o benefício do recurso hídrico flui para os centros urbanos mais desenvolvidos da RMC.
Revela-se, assim, um conflito ambiental distributivo, no qual o discurso da preservação pode, paradoxalmente, legitimar a manutenção da precariedade urbana. A ausência de saneamento em áreas de manancial potencializa, inclusive, a contaminação hídrica durante eventos climáticos extremos, agravando a vulnerabilidade de comunidades rurais e periurbanas. Conclui-se pela urgência de políticas públicas que integrem a conservação da natureza à garantia do direito humano à água, superando a lógica da “proteção por exclusão” em favor de um modelo de gestão territorial que concilie justiça social e sustentabilidade.
Referências
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