(In)sensibilidades Coletivas: Naturalização de Violência Infantil em Produções Audiovisuais

Evento: 14º Seminário Nacional de Sociologia e Política
Atividade/GT: GT 7 - Sociologia da Saúde, da Morte e das Sensibilidades
Atualizado em: 21/05/2026

Autoria
Autor(a): Matheus Aparecido Sartori Fernandes
Coautores: Henrique Paixão Martins, Jamilly Gabriele Caetano Gaspar Cavalheiro dos Santos
Resumo
O presente texto busca refletir sobre a seguinte cadeia causal: a demasiada exposição de representações violência na infância podem favorecer a dessensibilização coletiva, o que reduz a solidariedade, enfraquece a pressão pública por proteção e reparação, por consequência, aumenta a necessidade de regulação da circulação de conteúdos no campo da publicidade e entretenimento envolvendo menores. O objetivo é analisar criticamente esse processo e defender um horizonte regulatório voltado a conter a naturalização ou dessensibilização dos casos de abusos, considerando a violência infantil como questão de saúde coletiva.

Como recorte empírico, mobilizam-se narrativas audiovisuais amplamente difundidas que incluem cenas e enquadramentos potencialmente normalizadores de vulnerabilização infantil (Stranger Things, A Pequena Sereia, Monstros S.A. e Pinóquio). No Brasil dos anos 1990, observam-se fenômenos de erotização precoce associados a campanhas de produtos voltados à crianças — LoveXu e Tamanquinhos da Tiazinha. No plano internacional, o caso de Britney Spears evidencia como uma artista ainda adolescente foi submetida, em canais de grande audiência, a questionamentos pseudo-jornalísticos sobre sexualidade. A argumentação parte do diagnóstico de que a comunicação contemporânea é estruturada por redes de negócios multimídia globais, com diferentes formas de comunicação reunidas no mesmo conglomerado, sob alta concorrência e em ambiente de negócios cada vez mais oligopolista (CASTELLS, 2019).

Como indica a pesquisa psicofísica, os aumentos constantes na grandeza de um estímulo de forma típica provocam mudanças cada vez menores como resposta. Aplicar tal princípio à valorização da vida humana indica que uma forma de entorpecimento psicofísico pode ser resultado de nossa incapacidade de perceber as perdas humanas à medida que aumenta o número delas. (SLOVIC; KERJAN, 2010, p. 34).

Essa arquitetura amplia escala e repetição de enquadramentos e pode operar como anestesia moral. Em paralelo, investigações de Maximilien Ringelmann sobre comportamento coletivo, precursoras do conceito de social loafing, permitem considerar a difusão de responsabilidade como catalisador da retração do engajamento solidário e da naturalização do intolerável.

A análise apoia-se na noção de “comunicações sistematicamente distorcidas” (HABERMAS, 1970), nas quais operações ideológicas de naturalização de desigualdades produzem violência estrutural. Nessa perspectiva, enfrentar a “morte das sensibilidades” implica tratar a publicidade e o entretenimento com crianças como ponto estratégico de intervenção institucional: propõe-se orientar por uma regulação mais criteriosa de produtos audiovisuais que contém cenas de violência com menores, considerando o efeito cumulativo da demasiada exposição que consideramos aqui a chamar de fadiga empática.

O que nós necessitamos é de um pouco mais de práticas solidárias; sem isso, o próprio agir inteligente permanece sem consistência e sem consequências. No entanto, tais práticas necessitam de instituições racionais, de regras e formas de comunicação, que não sobrecarreguem moralmente os cidadãos e sim, elevem em pequenas doses a virtude de se orientar pelo bem comum. (HABERMAS, 1993, p. 94).

Sustenta-se, por fim, que a dessensibilização não deve ser reduzida a um efeito psicológico individual, mas compreendida como fenômeno sociológico com implicações para a saúde coletiva e para a proteção da infância, podendo configurar uma morte simbólica da sensibilidade social quando a violência se torna ordinária e pouco contestada.
Referências
ARIAS, Patrício Guerrero. Corazonar: una antropología comprometida con la vida. Miradas otras desde Abya-Yala para la decolonización del poder, del saber y del ser. Quito: Universidad Politécnica Salesiana, 2010.

CASTELLS, Manuel. O poder da comunicação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.

HABERMAS, J. Habermas, J. On systematically distorted communication. Inquiry, v. 13, 1970, p. 205-218.

HABERMAS, Jürgen. Passado como futuro. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1993.

MARQUES, Ângela Cristina Salgueiro; HERNÁNDEZ, Elisa Beatriz Ramrírez. O processo comunicacional de justificação recíproca em Jürgen Habermas e sua importância para a Comunicação Pública. Vozes e Diálogo, Itajaí, v. 22, n. 2, p. 47–60, dez. 2023. DOI: 10.14210/vd.v22n2.p47-60.

SEGATO, Rita Laura. La crítica de la decolonialidad en 8 ensayos y una antropologia por demanda. Buenos Aires: Prometeo Libros, 2015.

SLOVIC, Paul; KERJAN, Erwann. A economia irracional. Rio de Janeiro: Campus, 2010.