Para onde vai a memória do que circula? Política, plataformas e o problema metodológico da evidência

Evento: 14º Seminário Nacional de Sociologia e Política
Atividade/GT: GT 15 - Desafios teóricos, metodológicos e éticos em pesquisas com/de mídias e plataformas digitais
Atualizado em: 22/04/2026

Autoria
Autor(a): Jéssica Fernanda Cafisso
Coautores: Zuleika Bueno
Resumo
O problema metodológico trazido neste resumo escancara uma fragilidade na construção da memória política do país. Ele surgiu na prática da pesquisa, enquanto eu coletava materiais no Instagram para análise, um local onde a política institucional também é performada, mas não é documentada como deveria. Para apresentar essa angústia, proponho uma distinção operacional entre atuação governamental e extragovernamental. Na primeira, os registros ficam sob custódia do Estado (discursos em plenário, projetos de lei, requerimentos, votações, portais oficiais etc.), preservados por ritos públicos que sustentam a transparência e o direito constitucional de acesso à informação. Na segunda, estão os materiais produzidos por agentes eleitos em plataformas privadas (como o Instagram), cuja permanência e acessibilidade dependem de lógicas algorítmicas, regras de moderação, decisões do autor e instabilidades técnicas. O problema é que, na prática, essa fronteira se diluiu: os perfis analisados (Erika Hilton e Nikolas Ferreira), investidos de autoridade parlamentar, exibem continuidade entre atuação governamental e extragovernamental, fazendo circular narrativas com potencial de agenda fora do arquivo público.
Essa condição produz um xeque epistemológico: não se trata apenas de acesso ao dado, mas do caráter de evidência e de sua possibilidade de compor memória política. Em plataformas, conteúdos podem desaparecer, ser editados ou perder contexto. Os rastros digitais permanecem como pistas, mas, pistas não bastam. Aqui, a contribuição de Becker (2022) ajuda a precisar a questão. A evidência não é algo dado automaticamente, ela depende de procedimentos de produção, organização, comparação e demonstração. Por isso, proponho distinguir três níveis no trabalho empírico com plataformas: rastros (pistas de uma ação comunicacional), dados (rastros coletados e descritos pela pesquisa) e evidências (dados documentados com integridade, contexto e verificabilidade). Caso contrário, os dados “não podem ter o peso que a pesquisa põe sobre eles” (Becker, 2022, p. 19).
Buckingham (2022) qualifica esse ponto ao lembrar que mídias são produzidas em condições específicas, por atores e organizações com interesses e recursos. O que chega à pesquisa (vídeo, legenda, métricas, texto, perfil) não é um dado “dado”, mas um objeto produzido e formatado para circular. Thompson (2018) acrescenta que conteúdos extragovernamentais podem ganhar visibilidade em escala e pressionar instituições, estimulando respostas públicas e crises de credibilidade. Há, assim, uma assimetria: conteúdos com impacto na agenda circulam em suportes privados e instáveis, sem as garantias de preservação dos registros governamentais. Couldry e Hepp (2020) aprofundam o diagnóstico ao mostrar que rastros digitais não são mero subproduto, mas parte constitutiva de uma realidade social mediada por dados. Grohmann (2019), por sua vez, reforça que circulação não é sinônimo de métrica, mas disputa por sentidos e regimes de visibilidade.
Por fim, registrar rastros e convertê-los em evidências é uma resposta metodológica e ética, e precisa ser entendida como paliativa, enquanto isso não é enfrentado pelo Estado. Mas é também uma devolutiva: mostrar, pela prática de pesquisa, a urgência de ampliar as formas públicas de documentação da atuação política de eleitos em plataformas digitais.
Referências
Becker, Howard S. Evidências: sobre o bom uso de dados em ciências sociais. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2022.
Buckingham, David. Manifesto pela educação midiática. Tradução de José Ignacio Mendes. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2022.
Couldry, Nick; Hepp, Andreas. A construção mediada da realidade. Tradução Luiza Araújo. São Leopoldo, RS: Editora Unisinos, 2020.
Grohmann, Rafael. Os rastros digitais na circulação de sentidos: pela desnaturalização e contextualização de dados na pesquisa em comunicação. Galáxia (São Paulo, online), n. 42, p. 150-163, set.-dez. 2019. DOI: 10.1590/1982-25532019340183.
Thompson, John B. A interação mediada na era digital. MATRIZes, v. 12, n. 3, p. 17-44, set.-dez. 2018. Tradução: Richard Romancini. DOI: 10.11606/issn.1982-8160.v12i3p17-44.