“Programa Rosto da Cidade”: ordenar a cidade, governar a pobreza. Uma linha tênue entre políticas públicas urbanas de requalificação e produção de espaços excludentes em Curitiba

Evento: 14º Seminário Nacional de Sociologia e Política
Atividade/GT: GT 13 - Sociologia e Políticas Públicas
Atualizado em: 21/05/2026

Autoria
Autor(a): Silvana Zulmira Ferreira
Coautores: Maria Tarcisa Silva Bega
Resumo
Na manhã de 14 de outubro de 2025, imóveis localizados na Travessa Nestor de Castro, na região central de Curitiba, foram parcial e/ou integralmente desapropriados e demolidos para viabilizar a implementação da Rua da Memória. A intervenção faz parte de uma das várias medidas do programa “Curitiba de Volta ao Centro”, desdobramento do “Programa Rosto da Cidade”, lançado em 2018 sob a gestão do então prefeito Rafael Greca e desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), em articulação com atores públicos e privados.
Apresentado como política de requalificação e valorização do centro “tradicional”, o programa mobiliza categorias como ordem, pertencimento, patrimônio e segurança urbana, sustentando o discurso de “devolver o coração da cidade à população, tornando-o mais seguro, habitável e acolhedor”. A demolição foi justificada pela substituição de “algumas construções antigas, sem valor arquitetônico e que irá se integrar ao Memorial da Cidade e à Casa da Memória, configurando uma tríade para preservação e divulgação da memória da cidade”. Porém, parte desses imóveis abrigavam pequenos comércios responsáveis pela subsistência de aproximadamente 80 famílias, uma dimensão social que desprezada na narrativa oficial.
Diante desse cenário, questiona-se: Qual o rosto que a cidade quer mostrar? Qual a memória que a Curitiba quer preservar? Ou seja, que cidade se pretende revitalizar e para quem?
Este artigo propõe analisar a política de revitalização da região central de Curitiba sob a perspectiva da sociologia urbana crítica, compreendendo-a como parte de uma racionalidade contemporânea de governança urbana. Parte-se da hipótese de que determinadas políticas de requalificação, ao priorizarem a valorização imobiliária, a estetização do espaço e a atração de investimentos, produzem efeitos seletivos sobre o uso e a permanência no espaço público, incidindo de forma desigual sobre populações vulnerabilizadas, especialmente pessoas em situação de rua. Tais processos podem reforçar dinâmicas de gentrificação, exclusão socioespacial e aporofobia.
Busca-se, especificamente: (i) examinar o discurso institucional que sustenta a narrativa da “cidade ordenada”; e (ii) problematizar em que medida as intervenções associadas ao programa tensionam o direito à cidade ao redefinirem quem pode permanecer, circular e ser visível no centro urbano.
Metodologicamente, adota-se abordagem qualitativa, com análise documental de atos administrativos, legislações, materiais institucionais, pronunciamentos oficiais e cobertura jornalística, articulada aos estudos sobre políticas públicas, gentrificação e governança. A análise compreende o espaço urbano como arena de disputa e como instrumento de regulação social, evidenciando a linha tênue entre qualificação urbana e produção de espaços seletivos. Argumenta-se que, nesse contexto, a gestão do território pode operar como mecanismo indireto de gestão da pobreza, reinscrevendo desigualdades no próprio desenho da cidade.
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