Capital-imperialismo e dependência: fundamentos do poder oligárquico no Brasil contemporâneo

Evento: 14º Seminário Nacional de Sociologia e Política
Atividade/GT: GT 1 - Instituições e Poder: Parentescos e Genealogia
Atualizado em: 21/05/2026

Autoria
Autor(a): Julio Cesar Gonçalves da Silva
Resumo
A persistência de famílias tradicionais no controle das instituições políticas, econômicas e culturais constitui um dos traços mais duradouros da formação social brasileira (Oliveira, 2012, 2018). Este trabalho busca compreender os determinantes histórico-estruturais dessa oligarquização. Metodologicamente, articula revisão bibliográfica crítica com análise das transformações estruturais da economia mundial e de sua expressão na cena política brasileira no período que se estende da consolidação do lulismo ao governo Bolsonaro (2003-2022), buscando apreender as mediações entre capital-imperialismo, dependência e oligarquização. Sustenta-se que a continuidade genealógica dos grupos sociais dominantes não deve ser compreendida como resíduo arcaico ou anomalia institucional, mas como uma expressão fenomênica de uma estrutura particular de reprodução do sistema de classes. O ponto de partida da análise são as contribuições de Florestan Fernandes (1975, 2009) acerca do caráter associado e dependente da burguesia brasileira, cuja constituição como classe dominante se deu em articulação com o imperialismo e com as velhas oligarquias e em oposição à auto-organização das classes populares, bloqueando estruturalmente a democratização do poder. Nesse quadro, a superexploração da força de trabalho configura-se como mecanismo estrutural de compensação da inserção subordinada na economia mundial, criando um fosso entre as classes sociais (Marini, 2011). Essa compreensão é atualizada à luz da intensificação dos processos de concentração, centralização e financeirização do capital internacional, resultando em uma fase de acumulação que Virgínia Fontes (2010) caracteriza como capital-imperialismo. Destacam-se três elementos. Em primeiro lugar, os capitais situados no Brasil passam a operar com interesses expansionistas próprios, aprofundando o fosso entre estrutura produtiva e o consumo popular no país (Luce, 2018). Em segundo lugar, essa integração com o capital-imperialismo engendra novas formas de dominação por meio da expansão dos aparelhos privados de hegemonia para a difusão de valores filantrópicos e tecnocráticos que desarticularam as organizações da classe trabalhadora, despolitizando a questão social (Fontes, 2010). Em terceiro lugar, configura-se a especialização primário-exportadora como novo padrão de reprodução do capital na América Latina, em substituição à diversificação industrial anterior (Osório, 2012). Nesse novo padrão, o agronegócio surge como fração estratégica do capital-imperialismo, atualizando os traços oligárquicos da formação social brasileira. Nesse marco teórico, em diálogo com a obra de Ruy Braga (2012), o lulismo é interpretado como um modo de regulação política do regime de acumulação flexível e do padrão primário-exportador, realizando a cooptação das classes subalternas aos interesses do capital-imperialismo mediante a expansão do consumo popular. Com base nessas análises, a crise do lulismo é explicada pela crescente tensão entre a incorporação pelo consumo e os mecanismos de superexploração que garantem a inserção dependente no capital-imperialismo. O golpe de 2016 e a ascensão do bolsonarismo expressam, assim, a reconfiguração autoritária da dominação burguesa diante da impossibilidade de conciliar essas duas necessidades contraditórias. Afirma-se na conclusão que o padrão histórico de poder oligárquico se reproduz e se atualiza na própria lógica constitutiva do capitalismo dependente, apontando para os limites estruturais de qualquer projeto de conciliação de classes.

Palavras-chave: capital-imperialismo; dependência; oligarquia; superexploração; Brasil contemporâneo
Referências
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