Resumo
A lesbofobia, principalmente no ambiente familiar, contribui para que lésbicas sejam mantidas à margem e encontrem dificuldade na construção de vínculos seguros, provocando sentimentos de exclusão e solidão. No contexto da internet, as redes sociais surgem como possibilidade de vivenciar identidades dissidentes. Considera-se, portanto, o espaço on-line e off-line indissociáveis, visto que a internet se incorpora constantemente em relações domésticas e de trabalho, além de abranger diferentes usos e significados de acordo com os contextos e atores sociais (Hine, 2020). O TikTok surge, então, como importante ferramenta de interação e expressão principalmente entre jovens. A partir de Rich (2012), Brah (2006), Hall (2005) e Parreiras (2008), que discutem temas como heterossexualidade compulsória, contrução identitária na pós-modernidade e sexualidade no espaço digital, respectivamente, buscou-se entender o papel do TikTok na construção de sociabilidades entre lésbicas, com foco na formação de pertencimento, e, a partir disso, compreender os sentidos que guiam suas experiências e influenciam a formação de uma identidade lésbica, principalmente, em torno da solidão. Por meio de etnografia digital, foram analisados cinco vídeos, escolhidos a partir de pesquisas realizadas dentro da plataforma por meio das palavras solidão, amizade, sozinha e pertencer acompanhas da palavra lésbica ou sapatão. A partir do histórico de interesse, o aplicativo por meio dos algoritmos também passou a indicar vídeos com temáticas voltadas à lesbianidade. Após curadoria, foram selecionados os vídeos com o maior número de comentários, visto que, o espaço de sociabilidade é construído por meio do diálogo entre as interlocutoras. A temporalidade dos vídeos foi definida entre os anos de 2022 e 2024. Tendo em vista que o algoritmo do TikTok privilegia vídeos de pessoas brancas, optou-se por analisar pelo menos três vídeos de pessoas pretas ou pardas, para também entender como a raça pode influenciar as redes de sociabilidade lésbicas. A análise partiu da observação de aspectos técnicos, biográficos, socioeconômicos, imagéticos, textuais e de alcance e engajamento dos vídeos selecionados. Em seguida, realizou-se o mapeamento dos comentários e o diagnóstico de padrões temáticos que resultaram na criação de categorias de análise. Concluiu-se que há uma narrativa predominante sobre ser lésbica entre essas jovens que envolve suas experiências com a solidão, invalidação, rivalidade e isolamento e que influenciam a formação de suas identidades. Constatou-se que há uma solidão comum a essas jovens que está associada à falta de amizade com outras lésbicas, invalidação de sua sexualidade por amigos, família e por si próprias, sentimento de deslocamento em espaços predominantemente héteros e o afastamento da família de origem por razões de lesbofobia. Além disso, especialmente mulheres lésbicas que não performam feminilidade sofrem com a rivalidade entre suas similares, em uma espécie de disputa. Finalmente, observou-se que o TikTok, principalmente por meio da interação nos comentários dos vídeos, tornou-se ferramenta de apoio e pertencimento dentro da comunidade lésbica que se extendeu para outras plataformas de sociabilidade e para a vida fora do digital.
Referências
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