Resumo
O diploma universitário, que por muito tempo foi apresentado como garantia de ascensão social e reconhecimento, já não assegura boas condições de trabalho nem autonomia profissional. Diante da escassez de postos formais e da corrosão progressiva dos direitos sociais, profissionais liberais como advogados, médicos e psicólogos passam a recorrer às empresas de plataformas digitais como estratégia de inserção laboral. Neste contexto, o presente trabalho analisa o fenômeno da plataformização de serviços prestados por profissionais liberais, expandindo o debate sobre o trabalho digital para além dos setores tradicionais de transporte e entrega. As análises que abordam os efeitos dessa dinâmica plataformizada sobre profissões de nível superior, ainda são escassas. O objetivo central é investigar como empresas de plataformas digitais de intermediação de serviços de profissionais liberais reorganizam o trabalho intelectual qualificado, submetendo-o a lógicas de precarização, desregulação e subordinação algorítmica. Para construir essa análise, adota-se uma abordagem qualitativa fundamentada em pesquisa bibliográfica crítica e na análise das dinâmicas operacionais dessas plataformas. A investigação mobiliza o referencial teórico de Ricardo Antunes sobre a nova morfologia do trabalho e a escravidão digital, em diálogo com os conceitos de plataformização desenvolvidos por autoras como Ludmila Abílio e Maria Aparecida Bridi. Os resultados parciais indicam que embora as empresas de plataformas de saúde e jurídicas se apresentem como meras mediadoras, elas atuam na prática como protagonistas na criação de normas e dispositivos de controle, dificultando a distinção entre a figura clássica de organização do trabalho e novas modalidades de trabalho. A problemática se insere em um cenário de saturação do mercado de trabalho profissional qualificado, resultado de décadas de expansão desordenada do ensino superior privado, amplamente difundido como via privilegiada de ascensão social e estabilidade profissional. Esse contingente constitui um exército de reserva altamente qualificado que vem sendo reorganizado por plataformas digitais. Com isso, o estudo contribui para o debate sobre as transformações contemporâneas do trabalho no Sul Global e sobre os novos modos de precarização profissional. Longe de se limitarem à modernização das relações laborais, essas plataformas reconfiguram o cotidiano dos trabalhadores, diluindo as fronteiras entre vida privada e atividade profissional mediada pelo digital. O fenômeno aponta, por fim, para a necessidade de repensar formas de organização coletiva do trabalho e perspectivas de enfrentamento à fragmentação individualizante característica do capitalismo de empresas de plataforma contemporâneo.
Referências
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