Dinâmicas identitárias e migrações: histórias de vida de migrantes venezuelanas/os em Brasília

Evento: 14º Seminário Nacional de Sociologia e Política
Atividade/GT: GT 2 - Migrações Internacionais e Fronteiras
Atualizado em: 21/05/2026

Autoria
Autor(a): BEATRIZ BENTO GARGANO
Coautores: Stefan Klein
Resumo
Esta apresentação aborda a relação entre migração e identidade nas histórias de vida de venezuelanas(os) residentes em Brasília, a partir de pesquisa qualitativa realizada em 2024. O estudo busca compreender como migrantes constroem e percebem suas identidades ao atravessarem fronteiras e se inserirem em um novo país. Atravessar fronteiras, nesse sentido, não é apenas uma mudança territorial e cartográfica, mas um processo interno de transformação cultural e identitária, em que pertencimentos e formas de identificação são tensionados, negociados e ressignificados.
O trabalho de campo recorreu à metodologia de História de Vida, permitindo captar a subjetividade e a complexidade das trajetórias de cinco migrantes venezuelanas(os). A análise abarcou as dinâmicas migratórias por meio dos estudos identitários, articulando contribuições sobre transnacionalismo (Glick-Schiller et al.), estigma e marcação social (Goffman; Dutra) e identidade fronteiriça (Gloria Anzaldúa), e dialogou com perspectivas decoloniais que concebem a identidade como um processo relacional, histórico e em constante construção.
Aqui o foco é o fato de a experiência migratória produzir dinâmicas identitárias complexas. Tomando por base o entrelaçamento de migração e identidade, a análise se volta a três dinâmicas identitárias: (i) o transnacionalismo, (ii) a marca e (iii) a fronteira. O transnacionalismo se manifesta na manutenção de vínculos afetivos, culturais e econômicos com a Venezuela, revelando que as fronteiras nacionais não encerram pertencimentos, mas os reorganizam. A dinâmica da marca emerge quando a origem define o modo como o sujeito é percebido e classificado, produzindo experiências de alteridade, estranhamento e, por vezes, xenofobia. Já a condição fronteiriça aponta possibilidades de habitar o “entre”, em que referências venezuelanas e brasileiras se combinam e novas formas de identificação emergem. Foi possível constatar, também, o papel de redes e instituições de acolhimento na sustentação dessas dinâmicas.
O aspecto situacional da identidade revela ser possível identificar-se em diferentes níveis, transitando por contextos diversos, interagindo com múltiplos grupos e, frequentemente, sendo percebido como pertencente a mais de um. Aprofundando os entremeios dessas classificações, destacamos o lugar sem inclusão/exclusão absolutas no âmbito dessas definições, proporcionando fluidez identitária, com relações de pertencimento que assumem caráter gradativo e de constante mudança. Posicionadas em espaços intermediários, as pessoas nunca se percebem pertencentes de maneira plena, ocupando uma posição paradoxal que transita entre inclusão e exclusão. No contexto migratório, essa forma de pertencimento torna-se ainda mais evidente: ao transitar fisicamente por diversas situações, contextos, grupos e culturas, as identificações ultrapassam as delimitações rígidas, criando espaços próprios e singulares de relação com esses grupos.
As histórias de vida evidenciaram que a identidade, longe de fixada ou essencializada, está marcada por processos dinâmicos, relacionais e continuamente negociados, moldados pelas interações sociais ao longo das trajetórias migratórias. Nesse sentido, pensar a relação entre identidade e migração permite questionar formas de identificação baseadas em categorias rígidas e desafiar lógicas classificatórias que reduzem sujeitos a pertencimentos únicos. Olhar as dinâmicas migratórias à luz dos estudos identitários aponta que a experiência migratória tenciona fronteiras simbólicas e nacionais cristalizadas, abrindo espaço para reconhecer formas múltiplas, plurais e complexas de existência e pertencimento.
Referências
ANZALDÚA, G. La conciencia de la mestiza / Rumo a uma nova consciência. Revista de Estudos Feministas, vol. 13, n. 3, pp. 704–719, set./out. 2005 [1987].
BECKER, H. S. Outsiders. Rio de Janeiro: Zahar, 2008 [1965]
DUTRA, D. Marcas de uma origem e de uma profissão: trabalhadoras domésticas peruanas em Brasília. Cadernos CRH, Salvador, v. 28, n. 73, abr. 2015, pp. 181-197.
GLICK-SCHILLER, N.; BASCH, L.; SZANTON BLANC, C. De imigrante a transmigrante: teorizando a migração internacional. Cadernos CERU, série 2, v. 30, n. 1, jun. 2019, pp. 349-394.
GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: LTC, 2008 [1988].
LUGONES, M. Rumo a um feminismo decolonial. Revista Estudos Feministas, v. 22, n. 3, pp. 935-952, dez. 2014.
OLIVEIRA, M. de. O Tema da Imigração na Sociologia Clássica. Dados, Rio de Janeiro, v. 57, n. 1, pp. 73-100, 2014.