Resumo
O artigo discute as limitações epistemológicas dos índices quantitativos de vulnerabilidade urbana e propõe o modelo de articulações socioespaciais, fundamentado na trialética bourdieusiana (espaços simbólico, social e físico), como alternativa orientada para processos. Argumenta que tais índices, embora procedimentalmente úteis para gestão urbana, sofrem de cinco limitações estruturais: homogeneização de lógicas causais distintas, reificação de categorias sociais, caráter estático das mensurações, desatenção às escalas geográficas e invisibilização de vulnerabilidades extremas, tratando vulnerabilidade como propriedade de grupos ou territórios e não como processo relacional. A partir de Bourdieu e Wacquant, vulnerabilidade é redefinida como resultado de articulações entre espaço simbólico (classificações, estigmas, inércias simbólicas), espaço social (distribuição desigual de capitais) e espaço físico (materialidade urbana apropriada de forma diferenciada), o que permite distinguir três tipos analíticos: articulação positiva (acúmulo de privilégios em enclaves de elite), articulação negativa (acúmulo de desvantagens em periferias estigmatizadas) e desarticulação (desencontros e dessincronizações entre os três espaços que podem indicar crise, deslocamento ou oportunidade de transformação). O modelo oferece instrumentalidades para diagnóstico diferenciado de contextos de “alta vulnerabilidade”, mapeamento de mecanismos (estruturais, institucionais e praxiológicos) e análise de trajetórias temporais, incluindo processos como gentrificação, nos quais a rearticulação sincronizada dos três espaços pode simultaneamente melhorar territórios e intensificar vulnerabilidades via deslocamento populacional. Ao mesmo tempo, o artigo alerta para o risco de o próprio modelo ser operacionalizado de modo binário (“articulado/desarticulado”), defendendo abordagens gradativas, tipologias multidimensionais, atenção à temporalidade e contextualização relacional. Conclui que uma ciência social urbana orientada para processos deve compreender vulnerabilidade e privilégio como co constituídos pelas operações simultâneas nos três espaços, o que exige metodologias etnográficas e processuais capazes de mapear mecanismos, trajetórias e formas de agência em contextos vulnerabilizados, bem como de tornar visíveis as articulações que produzem e naturalizam privilégios em enclaves urbanos.
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