Resumo
Nas últimas décadas a historiografia e o Pensamento Social brasileiro, buscam desenvolver releituras sobre a escravização de seres humanos aqui praticada e legitimada entre os séculos XVI e XIX e seu legado para a compreensão do Brasil contemporâneo, chamando atenção para o fato de que, apesar de ser lembrada na literatura e em meios de comunicação de massa (por exemplo em novelas e filmes), a escravização ainda não foi devidamente analisada como uma relação socioeconômica, que ajudou a estruturar a “naturalização” das desigualdades. Entende-se que, para entender o Brasil contemporâneo em todas as suas contradições, como por exemplo, quando se assiste atualmente ao extermínio de jovens pretos e pobres, desumanizados em seus corpos e destinos, é necessário compreender o papel central da escravização de seres humanos na criação de todas as demais instituições, algo que, apesar de nomeado por Freyre (2006), tem sido discutido enquanto questão social mais ampla nos trabalhos de Ribeiro (2006) e Souza (2017; 2021) A partir da constatação da necessidade de promover uma discussão e compreensão mais aprofundada deste fenômeno sociologicamente relevante para a compreensão do Brasil atual, apresenta-se o relato da experiência de um projeto de ensino realizada com estudantes de ensino médio em um campus do Instituto Federal do Paraná (IFPR). O projeto de ensino ora apresentado, desenvolveu o estudo de livros de conteúdo histórico e sociológico, iniciando pelo livro: "Escravidão: do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares", volume I de Laurentino Gomes. Este livro foi escolhido para o início das atividades, compostas por rodas de leitura, e por sua linguagem e escrita acessíveis, considerando que o público-alvo do projeto eram estudantes do ensino médio da escola pública. Tal caráter acessível e claro do livro, expondo os fatos de forma didática foi importante para contribuir para o sucesso do projeto. Durante os encontros, as leituras eram pausadas, possibilitando a explicação de determinados acontecimentos e fatos ligados ao contexto vivenciado pelas sociedades que viviam no continente africano até a chegada dos europeus, bem como, sobre a travessia dos seres humanos capturados e levados em “tumbeiros” na condição de escravizados para o Brasil e de suas respectivas condições ao chegarem aqui. As pausas nas leituras serviram também para a contextualização geográfica dos acontecimentos narrados no supracitado livro. Foram realizados 10 encontros, que resultaram na discussão e análise dos 10 primeiros capítulos do livro. Os encontros com leituras coletivas, intermediadas por discussões e contextualizações históricas e sociais, eram seguidos de produção de resenhas escritas e resumos desenvolvidos por dois estudantes que recebiam bolsa, financiada pelo Programa de Apoio à Implementação de Projetos de Ensino (PAIPE) mantida pelo IFPR. A experiência da realização do projeto se mostrou oportuna no sentido de que, possibilitou o aprofundamento de um tema, presente no componente curricular de Sociologia no Ensino médio, e também em marcos regulatórios como as leis 10.639/03 e 11.645/08, e que, por conta da limitação de tempo, tornam-se difíceis de serem aprofundadas durante as aulas regulares.
Referências
FREYRE, Gilberto. Casa-grande e senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 51ª ed. São Paulo: Ed. Global, 2006.
GOMES, L. Escravidão: do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares. Vol.1. Rio de Janeiro. Globo livros. 2019.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à lava jato. Ed. Leyá. Rio de Janeiro, 2017.
SOUZA, Jessé. Como o racismo criou o Brasil? Ed. Estação Brasil. Rio de Janeiro, 2021.