Academia Cruzalmense de Letras (ACL) e a noção de "minoria" de Raymond Williams
Evento: 14º Seminário Nacional de Sociologia e Política
Atividade/GT: GT 4 - Sociologia da Cultura
Atualizado em: 28/04/2026
Autoria
Autor(a): Sarah Roberta de Oliveira Carneiro
Resumo
A pensadora Maria Elisa Cevasco, ao falar dos alinhamentos epistemológicos entre Richard Hoggart e Raymond Williams, na medida em que nos comunica em seu livro “As Dez Lições Sobre Estudos Culturais” o quanto ambos se esforçaram, ainda que em graus diferentes, para se afastarem da atmosfera elitista que circunda os enunciados sobre cultura e crítica literária proferidos principalmente por Coleridge, Arnold e Leavis, salienta que Hoggart e Williams são oriundos da classe trabalhadora e se interessam por “manifestações que a tradição da alta cultura relega à confusão conceitual ‘de cultura popular, de massas, da classe trabalhadora [...]’” (CEVASCO, 2003, p. 21). Como sabemos, tal confusão, observada por Cevasco, está expressa em abundância nas sociedades, inclusive, em alguns aportes teóricos, entre os quais, os delineados pela Escola de Frankfurt. Sem dúvida, um dos principais chamamentos de Williams (1969) é exatamente nos motivar a diluirmos as assimetrias imputadas aos bens culturais diversos, nos estimulando, assim, a dissiparmos a ideia de que cultura é atributo concedido a uma “minoria educada, doce e perfeita”. No entanto, basta uma mirada na paisagem social da sociedade brasileira para percebermos que a dinâmica das hierarquias e o princípio do prestígio social pairam como variáveis no campo cultural, o que se verifica, por exemplo, na classificação dos museus: há os mais e os menos badalados, e também na desigual distribuição de salas de cinema pelo País, com uma concentração explícita desses equipamentos nas capitais dos estados em detrimento das cidades do interior. Se pensarmos em termos de literatura, a tendência é indicarmos as academias de letras, que, em conformidade com o modelo francês congregam 40 imortais e têm por objetivo o cultivo da língua e da literatura nacionais, como entes propagadores de uma dita superioridade; neste caso, no que tange o domínio da escrita. Elas representariam então o que Leavis propagou em seus estudos, ou seja, funcionariam como espaço a atualizar as perspectivas que compreendem cultura como dimensão reservada aos eleitos. Será? Eis o debate que esta proposta de trabalho deseja fomentar, ao tomar como recorte empírico a Academia Cruzalmense de Letras (ACL), criada pela Lei Municipal nº 2797/21, de autoria do vereador petista Pablo Rezende (mandato 2021-2024), e fundada no ano de 2022 na cidade baiana de Cruz das Almas, situada a 150 quilômetros da capital Salvador e com uma população de aproximadamente 63 mil habitantes (IBGE, 2023). Trata-se, pois, de uma academia de letras em atuação no chamado Brasil profundo, longe dos holofotes, o que por si só já demarca um deslocamento do cânone, posto que as academias de letras, em terras brasileiras, estão associadas aos grandes centros urbanos. Integra a ACL um conjunto plural de sujeitos escreventes, aspecto que aciona dinâmicas que nos encorajam a repensarmos algumas reflexões de Raymond Williams, entre as quais, a noção de “minoria”, lançando as seguintes perguntas: que minoria é esta que compõe uma academia de letras situada em uma pequena cidade do Nordeste brasileiro? Tal minoria representa os valores da classe dominante ou está a serviço da cultura comum?
Referências
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