Resumo
O processo eleitoral no Brasil do século XIX era estruturado sob um sistema censitário, exclusivamente masculino e caracterizado por práticas de fraude e clientelismo. Na Província do Paraná, os partidos Liberal e Conservador protagonizavam disputas acirradas, nas quais o recrutamento político ocorria majoritariamente dentro de uma elite econômica e social restrita, consolidada por laços de parentesco profundos. O perfil sociopolítico dos deputados provinciais paranaenses no período compreendido entre a instalação da província, em 1854, até o fim do Império, em 1889, refletia essa homogeneidade. Durante esse intervalo, foram identificados 188 parlamentares, cuja maioria pertencia a um círculo fechado de famílias tradicionais, como os Sá Ribas (Curitiba), Correia e Guimarães (Paranaguá), Guimarães, Ribas, Oliveira e Sá (Campos Gerais) e Alves de Araújo (Antonina) , que garantiam a manutenção do poder por meio de estratégias de alianças matrimoniais e sucessão hereditária de cargos. Dialogando com a perspectiva teórica de Norbert Elias sobre a relação entre "estabelecidos e outsiders", o objetivo central deste trabalho é identificar e analisar os deputados que conquistaram mandatos sem pertencer ao núcleo dessas linhagens dominantes. Entre esses atores, destacam-se figuras como Henrique de Beaurepaire Rohan, André Rebouças, José Cleto da Silva, além de um estrato composto por padres, advogados, médicos e militares, muitos deles vindos de fora do Paraná. A pesquisa busca compreender como esses indivíduos viabilizaram suas vitórias em um sistema tão fechado e, inclusive, em que medida suas trajetórias destoavam do padrão de recrutamento vigente. Metodologicamente, a investigação fundamenta-se na prosopografia (biografia coletiva), técnica que permite o mapeamento de variáveis como origem geográfica, formação acadêmica, ocupação profissional, patrimônio e vínculos associativos. Através do cruzamento desses dados, observou-se que os políticos “outsiders”, embora em número reduzido, necessitavam associar-se aos grupos políticos majoritários, integrando suas listas de votação e angariando simpatia junto ao eleitorado. Uma vez eleitos, a análise aponta que esses parlamentares frequentemente defendiam interesses que diferiam da organização social da classe dirigente tradicional, sugerindo que a arena parlamentar provincial, embora controlada por oligarquias, permitia brechas para a atuação de novos agentes. A consequência para estes “outsiders” eleitos era a exclusão numa próxima eleição. Conclui-se que o estudo desses perfis “desviantes” é fundamental para compreender as nuances da representação política no Império, revelando uma dinâmica mais complexa do que a reprodução hereditária de poder e contribuindo para o debate sobre a circulação de elites, a necessidade de se analisar a trajetória destes indivíduos e a história das instituições políticas paranaenses.
Referências
ALVES, Alessandro Cavassin. A Província do Paraná e sua Assembleia Legislativa (1853 a 1889): a força política das famílias tradicionais. Curitiba: Máquina de Escrever, 2015.
BERTAUX, Daniel. Destinos pessoais e estrutura de classe. Para uma crítica da antroponomia política. Rio de Janeiro: Zahar editores, 1979.
OLIVEIRA, Ricardo Costa de. A genealogia como metodologia de análise das estruturas de desigualdade e estratificação social. In: XV Congresso Brasileiro de Sociologia (SBS). Curitiba, PR, 2011.
PICUSSA, Roberta. Como identificar parlamentares outsiders?: uma proposta de índice para Brasil, Chile e Argentina. Curitiba: Tese (Doutorado) Ciência Política. UFPR, 2024.