Formação crítica em disputa: currículo padronizado e desafios ao ensino de Sociologia no Ensino Médio do Paraná

Evento: 14º Seminário Nacional de Sociologia e Política
Atividade/GT: GT 13 - Sociologia e Políticas Públicas
Atualizado em: 21/05/2026

Autoria
Autor(a): Ivandina Xavier Mendes Kolbe
Resumo
Este artigo analisa criticamente as transformações recentes no ensino de Sociologia na rede pública estadual do Paraná, com foco nos efeitos da plataformização do ensino sobre a organização curricular e o trabalho docente. A adoção de materiais didáticos digitais e de planos de aula previamente estruturados por instâncias centrais tem produzido um processo de uniformização curricular que homogeneíza conteúdos, ritmos e estratégias pedagógicas, desconsiderando as especificidades de cada escola, as trajetórias profissionais dos professores e as experiências socioculturais dos estudantes. Ao converter o currículo em um roteiro comum, pouco flexível e aplicado indistintamente a contextos diversos, esse modelo restringe a autonomia pedagógica, inflexibiliza as práticas docentes e limita as possibilidades de mediação crítica do conhecimento, tensionando o potencial formativo da disciplina de Sociologia, historicamente comprometida com a problematização das desigualdades, dos conflitos sociais e da diversidade cultural, conforme orientam as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
A pesquisa caracteriza-se como qualitativa, de natureza documental e comparativa, tomando como corpus empírico os slides, planos de aula e exercícios disponibilizados pela Secretaria de Estado da Educação do Paraná para o segundo ano do Ensino Médio, em contraste com o livro didático Sociologia em Movimento. Como recorte analítico, selecionou-se a abordagem da temática indígena, por compreender-se que esse conteúdo demanda contextualização histórica, debate político e reconhecimento de sujeitos coletivos, constituindo um indicador relevante da densidade crítica do currículo. Os materiais foram sistematizados em quadros comparativos, considerando a organização dos conteúdos, a profundidade conceitual e os tipos de atividades propostas aos estudantes.
O referencial teórico articula contribuições da Sociologia da Educação e da Antropologia da escola. Dayrell concebe a escola como espaço sociocultural de formação de sujeitos; Pereira analisa as políticas curriculares como práticas de poder mediadas no cotidiano escolar; Rocha problematiza representações despolitizadas dos povos indígenas em materiais didáticos; e Guimarães interpreta a plataformização como mecanismo de controle e monitoramento do trabalho docente. Dialoga-se ainda com Durkheim e Weber, cujas categorias de fato social e racionalização burocrática permitem compreender a organização curricular centralizada como forma de coerção institucional e de gestão técnica das práticas pedagógicas, características associadas a uma racionalidade gerencial de caráter neoliberal presente nas políticas educacionais contemporâneas.
Os resultados indicam que os materiais digitais apresentam fragmentação temática, simplificação conceitual e predominância de atividades objetivas e padronizadas, limitando a reflexão sociológica, enquanto o livro didático demonstra maior contextualização, continuidade temática e estímulo ao debate crítico. Conclui-se que a uniformização curricular promovida pelas plataformas compromete a autonomia docente e esvazia a formação reflexiva dos estudantes, distanciando o ensino de Sociologia de suas finalidades educativas e democráticas.
Referências
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: Ensino Médio. Brasília: MEC, 2018..
DAYRELL, Juarez. A escola como espaço sociocultural. In: DAYRELL, Juarez (org.). Múltiplos olhares sobre educação e cultura. Belo Horizonte: UFMG, 2007.
DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
GUIMARÃES, Lislaine Mara da Silva. Políticas educacionais e plataformização: controle da atividade docente na rede estadual de ensino do Paraná. 2025. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2025.
PARANÁ. Secretaria de Estado da Educação. Planos de aula e slides de Sociologia – 2º ano do Ensino Médio (1º, 2º e 3º trimestres). Curitiba: SEED-PR, 2025. Material didático digital disponibilizado em plataforma institucional (RCO+/Aulas).
PEREIRA, Alexandre Barbosa. Antropologia da escola e juventudes: práticas, mediações e políticas no cotidiano escolar. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 23, n. 49, p. 149–176, set./dez. 2017.
ROCHA, Everardo. Um índio didático: notas para o estudo das representações. In: ROCHA, Everardo (org.). Testemunha ocular: textos de antropologia social do cotidiano. São Paulo: Brasiliense, 1984. p. [inserir páginas do capítulo].
TOMAZI, Nelson Dacio (org.). Sociologia em movimento. 2. ed. São Paulo: Moderna, 2016.
WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília: Editora UnB, 2004. v. 1.