Resumo
Este artigo analisa criticamente as transformações recentes no ensino de Sociologia na rede pública estadual do Paraná, com foco nos efeitos da plataformização do ensino sobre a organização curricular e o trabalho docente. A adoção de materiais didáticos digitais e de planos de aula previamente estruturados por instâncias centrais tem produzido um processo de uniformização curricular que homogeneíza conteúdos, ritmos e estratégias pedagógicas, desconsiderando as especificidades de cada escola, as trajetórias profissionais dos professores e as experiências socioculturais dos estudantes. Ao converter o currículo em um roteiro comum, pouco flexível e aplicado indistintamente a contextos diversos, esse modelo restringe a autonomia pedagógica, inflexibiliza as práticas docentes e limita as possibilidades de mediação crítica do conhecimento, tensionando o potencial formativo da disciplina de Sociologia, historicamente comprometida com a problematização das desigualdades, dos conflitos sociais e da diversidade cultural, conforme orientam as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).
A pesquisa caracteriza-se como qualitativa, de natureza documental e comparativa, tomando como corpus empírico os slides, planos de aula e exercícios disponibilizados pela Secretaria de Estado da Educação do Paraná para o segundo ano do Ensino Médio, em contraste com o livro didático Sociologia em Movimento. Como recorte analítico, selecionou-se a abordagem da temática indígena, por compreender-se que esse conteúdo demanda contextualização histórica, debate político e reconhecimento de sujeitos coletivos, constituindo um indicador relevante da densidade crítica do currículo. Os materiais foram sistematizados em quadros comparativos, considerando a organização dos conteúdos, a profundidade conceitual e os tipos de atividades propostas aos estudantes.
O referencial teórico articula contribuições da Sociologia da Educação e da Antropologia da escola. Dayrell concebe a escola como espaço sociocultural de formação de sujeitos; Pereira analisa as políticas curriculares como práticas de poder mediadas no cotidiano escolar; Rocha problematiza representações despolitizadas dos povos indígenas em materiais didáticos; e Guimarães interpreta a plataformização como mecanismo de controle e monitoramento do trabalho docente. Dialoga-se ainda com Durkheim e Weber, cujas categorias de fato social e racionalização burocrática permitem compreender a organização curricular centralizada como forma de coerção institucional e de gestão técnica das práticas pedagógicas, características associadas a uma racionalidade gerencial de caráter neoliberal presente nas políticas educacionais contemporâneas.
Os resultados indicam que os materiais digitais apresentam fragmentação temática, simplificação conceitual e predominância de atividades objetivas e padronizadas, limitando a reflexão sociológica, enquanto o livro didático demonstra maior contextualização, continuidade temática e estímulo ao debate crítico. Conclui-se que a uniformização curricular promovida pelas plataformas compromete a autonomia docente e esvazia a formação reflexiva dos estudantes, distanciando o ensino de Sociologia de suas finalidades educativas e democráticas.
Referências
BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: Ensino Médio. Brasília: MEC, 2018..
DAYRELL, Juarez. A escola como espaço sociocultural. In: DAYRELL, Juarez (org.). Múltiplos olhares sobre educação e cultura. Belo Horizonte: UFMG, 2007.
DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
GUIMARÃES, Lislaine Mara da Silva. Políticas educacionais e plataformização: controle da atividade docente na rede estadual de ensino do Paraná. 2025. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2025.
PARANÁ. Secretaria de Estado da Educação. Planos de aula e slides de Sociologia – 2º ano do Ensino Médio (1º, 2º e 3º trimestres). Curitiba: SEED-PR, 2025. Material didático digital disponibilizado em plataforma institucional (RCO+/Aulas).
PEREIRA, Alexandre Barbosa. Antropologia da escola e juventudes: práticas, mediações e políticas no cotidiano escolar. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 23, n. 49, p. 149–176, set./dez. 2017.
ROCHA, Everardo. Um índio didático: notas para o estudo das representações. In: ROCHA, Everardo (org.). Testemunha ocular: textos de antropologia social do cotidiano. São Paulo: Brasiliense, 1984. p. [inserir páginas do capítulo].
TOMAZI, Nelson Dacio (org.). Sociologia em movimento. 2. ed. São Paulo: Moderna, 2016.
WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília: Editora UnB, 2004. v. 1.