Ideologia, recursos e comportamento eleitoral na América Latina: desafios teóricos e metodológicos
Evento: 14º Seminário Nacional de Sociologia e Política
Atividade/GT: GT 6 - Pensamento Político na América Latina
Atualizado em: 17/04/2026
Autoria
Autor(a): Alessandro Manoel da Silva
Resumo
Pelo menos desde os anos 1990, as eleições nos Estados Unidos e na América Latina têm sido marcadas pela centralidade do discurso ideológico em todo o espectro político. No entanto, evidências indicam que essa variável, quando analisada de forma isolada, apresenta pouco ou nenhum efeito sobre o comparecimento eleitoral na América Latina (Silva, 2022). Este artigo parte desse paradoxo, deslocando a pergunta de “quem e por que participa” para “como se participa politicamente”, buscando compreender a ideologia e sua articulação com outras variáveis capazes de orientar o sentido do voto à direita ou à esquerda.
A guerra cultural (Himmelfarb, 2001) nas eleições evidencia uma polarização com bases ideológicas, onde candidatos e partidos apostam na identificação do eleitor como primordial para ser eleito mesmo que a marcação entre “direita” e “esquerda” só produza efeitos consistentes sobre o comparecimento eleitoral quando combinadas a outros fatores sociais, econômicos e institucionais, já que não se observa uma relação direta entre a posição em escalas ideológicas e índices de comparecimento. Os desafios que se apresentam são metodológicos: qual a forma mais adequada de operacionalizar empiricamente a ideologia, já que a literatura a define de maneira subjetiva, enquanto os surveys tendem a reduzi-la a escalas lineares de 0 a 10? Quais são os aspectos do eleitorado que os condicionam ideologicamente?
Outros aspectos devem ser considerados, uma vez que a coerência da percepção que o indivíduo tem de sua orientação ideológica pode variar conforme contextos e recursos. Não se pressupõe que a ideologia não seja central no modelo explicativo do comparecimento eleitoral: A variável importa, mas é em relação ao contexto de forma que a ideologia se torna mais evidente quando a análise a relaciona a fatores institucionais, cognitivos e contextuais. Neste sentido, este artigo propõe deslocar a pergunta clássica — quem comparece ou se abstém? — para uma questão distinta: qual é o sentido ideológico do comparecimento eleitoral?
A ideologia foi definida como uma estrutura da personalidade (Adorno et al., 1950), conectando disposições psicológicas à orientação política — sendo que personalidades autoritárias tenderiam a se identificar com ideologias conservadoras (Jost et al., 2003). A obra de Verba, Schlozman e Brady (1995), ao formular o modelo do voluntarismo cívico, oferece uma ferramenta analítica robusta para compreender os determinantes da participação política. No entanto, o objetivo deste trabalho não é estimar a probabilidade de comparecer ou se abster, mas investigar os determinantes do sentido do voto. Busca-se, assim, identificar se há evidências empíricas de que uma identificação ideológica mais intensa, condicionada por recursos como renda e escolaridade, esteja associada à coerência entre autoidentificação ideológica e escolha do candidato correspondente.
Referências
Adorno, T. W., Frenkel-Brunswick, E., Levinson, D. J., and Sanford, R. N. (1950). The Authoritarian Personality, Harper, New YorkBARNES, Samuel H. et al. Political action: mass participation in five western democracies. Beverly Hills: Sage, 1979
Himmelfarb G. in One Nation,Two Cultures. New York: Vintage Books Holsti O.2004.Public Opinion and American Foreign Policy.Ann Arbor: Univ. Mich. Press.Rev. ed. 2001.
Hunter, James Davison. Culture Wars The Struggle To Control The Family, Art, Education, Law, And Politics In America (1992)
JOST, GLASER, KRUGLANSKI, SULLOWAY, Political Conservatism as Motivated Social Cognition, Psychological Bulletin, 2003, Vol. 129, No. 3, 339–375
SILVA, Alessandro Manoel da. Comparecimento eleitoral e extremos ideológicos na América Latina: investigando padrões em contextos facultativos e obrigatórios. 2022. 78 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2022.