Fernando Henrique Cardoso como ideólogo

Evento: 14º Seminário Nacional de Sociologia e Política
Atividade/GT: GT 6 - Pensamento Político na América Latina
Atualizado em: 17/04/2026

Autoria
Autor(a): Rodrigo Bischoff Belli
Resumo
A necessidade de estudar intelectuais como sujeitos históricos é central para a compreensão de como as ideias circulam, legitimam-se e influenciam as práticas humanas. É conhecida a visão de Antonio Gramsci sobre a importância dos intelectuais na construção e manutenção das formas hegemônicas de controle social. Na perspectiva gramsciana, estudar um intelectual é também estudar as relações de força nas quais suas posições são constantemente forjadas e como elas próprias forjam as posições de outros sujeitos.

A partir dessa premissa, a figura de Fernando Henrique Cardoso (FHC) merece atenção. Como sociólogo, ele é considerado um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento do marxismo nas ciências sociais brasileiras nas décadas de 1960 e 1970, especialmente por sua participação no grupo de estudos que sistematizou a leitura de “O Capital” e nas suas análises do desenvolvimento do capitalismo no Brasil. Como político, foi responsável pela elaboração do Plano Real e, consequentemente, pela adequação do aparato jurídico-político brasileiro ao pacto político pós-neoliberal que vigorou estável entre 1994 e 2013.

A hipótese elencada por Lidiane Soares Rodrigues — em trabalhos como “Fernando Henrique Cardoso nos Estados Unidos da América: a obra de um scholar, um scholar como obra” e “Fernando Henrique Cardoso e o marxismo brasileiro: tomadas de posição à luz de suas posições” é relevante aqui: ela aponta que há um hiato entre a centralidade do marxismo na obra de FHC e a dificuldade de enquadrá-lo no cânone do marxismo brasileiro tradicional devido suas tomadas de posição variantes. Ora defensor, ora refratário ao marxismo, essa hipótese sugere que FHC manipula sua imagem a partir de certo domínio dos conceitos e categorias do marxismo de sua época, ganhando posições na hierarquia social dos espaços nos quais participa em momentos variados de sua trajetória.

Mesmo contribuindo para compreensão das formas de engajamento de FHC com a teoria marxiana, a hipótese de Rodrigues possui um limite: não problematizar suficientemente as consequências sociais da produção intelectual de FHC para a reprodução das relações de dominação conjunturais. Ou seja, a análise que simplesmente realça sua posição como intelectual pode deixar de lado como essa mesma posição contribuiu à reprodução de relações que naturalizam a dinâmica capitalista e escamoteiam sua crítica radical, algo que a concepção marxiana de ideologia e a noção gramsciana sobre a intelectualidade destacariam como centrais.

Portanto, a hipótese defendida nessa comunicação é a de que é preciso compreender FHC como um ideólogo à luz de Karl Marx e Antonio Gramsci. Isso significa reconhece-lo como figura intelectual que, tal como os ideólogos criticados por Marx, manipula conceitos e categorias anteriores comuns ao seu campo formativo de maneira fraseológica, favorecendo o seu interesse particular nas estruturas hierárquicas sociais em detrimento da transformação radical da realidade.
Referências
CARDOSO, Fernando Henrique. Empresário industrial e desenvolvimento econômico no Brasil. São Paulo : Difusão Europeia do Livro, 1964.
CARDOSO, Fernando Henrique; FALETTO, Enzo. Dependência e desenvolvimento na América Latina. - 4ª ed. - Zahar : Rio de Janeiro, 1977.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere [edição e tradução de Carlos Nelson Coutinho; coedição de Luiz S. Henriques e Marco A. Nogueira]. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 2000, v. 2.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã [tradução de Rubens Enderle, Nélio Schneider e Luciano Martorano]. São Paulo : Boitempo, 2007.
RODRIGUES, Lidiane Soares. "Fernando Henrique Cardoso nos Estados Unidos da América: a obra de um scholar, um scholar como obra" In Novos Estudos CEBRAP, 41, Maio-Agosto, 2022, pp. 273-293.
RODRIGUES, Lidiane Soares. “Fernando Henrique Cardoso e o marxismo brasileiro: tomadas de posição à luz de suas posições” In BELINELLI, Leonardo; LIMA, Pedro Luiz; HELAYEL, Karim (orgs.) Fernando Henrique Cardoso: modos de ler. Hucitec : São Paulo, 2025, pp. 233-264.