“Coisa pra branco ver”: Os festivais culturais em Londrina.

Evento: 14º Seminário Nacional de Sociologia e Política
Atividade/GT: GT 4 - Sociologia da Cultura
Atualizado em: 28/04/2026

Autoria
Autor(a): Tiago Daniel Ramos da Silva
Resumo
Este trabalho analisa o cenário cultural de Londrina (PR), em especial a partir dos festivais artísticos, problematizando o planejamento e a estruturação das ações, que mantêm um viés classista, permeado por barreiras diretas e indiretas de acesso para corpos historicamente marginalizados. A análise acompanha desde o surgimento do Festival Internacional de Londrina (FILO), em 1968 (Brandalize, 2011; Martins; Medeiros Deliberado, 2015; Leite, 2012), até o surgimento do Festival das Diversidades (FDD), em 2023. A premissa que norteia este trabalho fundamenta-se na afirmação oral comumente utilizada por pessoas, majoritariamente pertencentes a grupos marginalizados: “coisa pra branco ver”, que ressalta os recortes raciais nas produções culturais do município (Gadini, 2009). Embora o recorte racial esteja em evidência na frase escolhida, o trabalho observa outros pontos a partir do olhar das interseccionalidades (Akotirene, 2019): gênero, sexualidade, raça, deficiência e condição socioeconômica, em diálogo com as transformações da cidade.
Dessa maneira, a pesquisa observa aspectos que caracterizam essas produções e reforçam tais marcadores, decorrentes da estruturação burguesa instaurada no município. Para além de problematizar esses elementos, o trabalho apresenta um contraponto ao padrão “pé-vermelho”: o Festival das Diversidades (2026). O projeto contempla ações culturais e acadêmicas de grupos marginalizados, contrapondo a lógica classista de Londrina (PR). Desde 2023, dedica-se à inclusão de ações de coletivos LGBTQIAPN+, à realização de batalhas de rima, à difusão de conhecimento e ao acesso à cultura Ballroom, utilizando a música e outras vertentes artísticas como instrumentos de pertencimento, ocupação e resistência, além de articular debates, mesas e simpósios voltados à problematização do espaço ocupado por esses corpos.
A pesquisa adota abordagem qualitativa, de caráter exploratório e interventivo. Por meio da análise documental de políticas culturais, editais públicos e instrumentos institucionais, buscando compreender os marcos que estruturam o campo cultural local. Soma-se um survey para mapeamento socioterritorial da infraestrutura cultural da cidade, evidenciando padrões de concentração e exclusão no acesso aos espaços de cultura. Incorpora-se ainda, observação participante na concepção e organização de um festival cultural independente, entendido como prática de enfrentamento às desigualdades identificadas. O trabalho integra diagnóstico sociológico e intervenção concreta, aproximando-se da pesquisa-ação ao articular produção de conhecimento e ação política (Tripp, 2005).
Assim, o estudo aprofunda a problematização das desigualdades no acesso à cultura em Londrina e contribui empiricamente para a Sociologia da Cultura ao evidenciar as relações entre estruturas sociais, produção cultural e agência coletiva. Ao analisar os festivais como espaços de produção, circulação e recepção de ideias, demonstra-se como trajetórias artísticas são condicionadas por marcadores sociais. Ao apresentar o Festival das Diversidades como experiência de reorganização do campo cultural local, evidencia-se a capacidade de artistas e coletivos de tensionar essas estruturas, mobilizando tecnologias ancestrais e práticas periféricas como estratégias de enfrentamento às segmentações urbanas, oportunizando, de modo material e simbólico, algumas “coisas para todes verem”.
Referências
AKOTIRENE, Carla. Interseccionalidade. São Paulo: Pólen, 2019.
BRANDALIZE, Adalberto et al. Londrina cidade inovadora: cidades inovadoras Londrina 2030 – todos pelo bem-estar. Curitiba: SENAI-PR, 2011.
GADINI, S. L. Produção jornalística nas sociedades contemporâneas: breves considerações sobre a exclusão cultural e a condição de cidadania. Emancipação, Ponta Grossa, v. 7, n. 1, 2009.
LEITE, Y. da S. Entretenimento como fator de desenvolvimento socioeconômico em Londrina. Revista F@pciência, Apucarana, v. 9, n. 7, p. 53–63, 2012.
MARTINS, Giovana Maria Carvalho; MEDEIROS DELIBERADO, Raquel de. O Festival Internacional de Londrina e a ditadura: práticas estudantis e movimentos culturais na década de 1960. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA, 7., 2015, Maringá: UEM, 2015.
TRIPP, David. Pesquisa-ação: uma introdução metodológica. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 3, p. 443–466, set. 2005.