Resumo
A geriatra brasileira Ana Claudia Quintana Arantes tornou-se conhecida nacionalmente ao difundir a filosofia dos cuidados paliativos por meio de seu livro de estreia, “A morte é um dia que vale a pena viver”, publicado em 2016. Anos depois, em seu terceiro livro (intitulado “Pra vida toda valer a pena viver: Pequeno manual para envelhecer com alegria”), Arantes revelou a origem da frase escolhida para batizar sua primeira obra, frase frequentemente citada em outros livros, palestras e produtos audiovisuais sobre o paliativismo produzidos nos últimos anos: o filme "Piratas do Caribe: No fim do mundo" (2007). Nele, o Capitão Barbossa e sua tripulação, piratas normais durante o dia e zumbis (com ossos expostos e peles penduradas) durante a noite, batalham em meio a uma tempestade que desafia o dom da imortalidade que haviam recebido. Barbossa, no entanto, considera a imortalidade como uma maldição, e, quando enfim se depara com a possibilidade de morrer, ergue uma espada e proclama “a morte é um dia que vale a pena viver”! A partir desta frase, a autora desenrola sua principal reflexão: os cuidados paliativos, especialidade voltada para o cuidado de pessoas que sofrem de doenças graves que ameaçam a continuidade da vida, não são sobre a morte — mas sim sobre como viver com qualidade e conforto, face um processo de adoecimento que afeta todas as esferas da vida de uma pessoa. "Piratas do Caribe: No fim do mundo", como um todo, não se dispõe a debater a vida e a morte. Todavia, existem diversos filmes que trouxeram para as telas do cinema a morte, o morrer e o processo de luto, temas intrinsecamente ligados ao universo dos cuidados paliativos. Algumas destas películas citam ou mostram os cuidados paliativos ou hospices (unidades hospitalares exclusivamente dedicadas ao cuidado de pacientes paliativos, bem como de seus familiares) de forma clara e contundente. É sobre elas que o presente trabalho se debruça, buscando analisar como o cinema, ao lançar os holofotes sobre a filosofia paliativista, pode atuar como um dispositivo pedagógico e moral, capaz de ampliar o debate público sobre finitude, autonomia e sofrimento.
Referências
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