Resumo
No presente texto, busco discutir como os números LGBTI+ produzem controvérsias sobre sexo, gênero e sexualidade no debate público, a partir da análise da organização Mulheres Associadas, Mães e Trabalhadoras do Brasil (MATRIA). A controvérsia em questão tem como foco os dados estatísticos que consideram os conceitos de identidade de gênero e orientação sexual nos critérios de sua mensuração. O primeiro é visto com especial crítica pela organização, tendo em vista sua defesa do conceito de sexo biológico. Busco analisar e distinguir a mobilização dos dois conceitos no debate público pelos diferentes grupos. O primeiro é mobilizado pelos movimentos LGBTI+, em especial pelo transativismo, que reivindica, há cerca de trinta e cinco anos — e, nos últimos dez, com maior robustez —, a inclusão de categorias que representem seu sujeito político nas pesquisas estatísticas e censitárias produzidas pelo Estado brasileiro. O segundo, por outro lado, é mobilizado pela MATRIA em relatórios e materiais de divulgação para a qualificação da categoria política de mulher que defende. Em termos metodológicos, tais tensões foram acessadas por meio do mapeamento e da análise das publicações da MATRIA em suas páginas na internet, tanto em seu site quanto em seu perfil no Instagram. Argumento que a MATRIA compõe o se denomina pensamento “crítico de gênero”, que busca se opor ao conceito de gênero ou de identidade de gênero em um ativismo marcado por uma agenda anti-trans, traduzindo para o contexto brasileiro o repertório de ação desse pensamento, que tem tido ascensão no contexto do Reino Unido. Nesse sentido, concluo que os números tanto significam coisas diferentes a partir da posicionalidade de quem os produz quanto são significados de modo diferencial: enquanto, para o Estado, constituem uma forma de visualizar e administrar uma população, apresentando aquilo que seria oficial para a nação, para os movimentos sociais tendem a ser uma maneira de de disputar visões de mundo e tornar uma população visível a partir de categorias que lhes são próprias. Esse jogo de forças torna explícita a relevância política atribuída por diferentes atores sociais ao que é, como é e quem é contado (ou não) pelas instituições governamentais.
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