Quando os padrinhos políticos são familiares religiosos: fé, herança e capital simbólico na trajetória política de Priscila Costa

Evento: 14º Seminário Nacional de Sociologia e Política
Atividade/GT: GT 1 - Instituições e Poder: Parentescos e Genealogia
Atualizado em: 21/05/2026

Autoria
Autor(a): KEROLAINE DE CASTRO OLIVEIRA
Coautores: Emanuel Freitas da Silva
Resumo
Este trabalho analisa a trajetória político-religiosa de Priscila Costa (PL), investigando como sua inserção na política brasileira é construída a partir da articulação entre fé, herança familiar e capital simbólico oriundo do campo religioso. O estudo tem como objetivo compreender os mecanismos de conversão do capital religioso-familiar em capital político, bem como os limites do protagonismo feminino de mulheres evangélicas, analisando de que modo a consolidação do neoconservadorismo e da chamada direita cristã tem oferecido, por meio da religião, uma legitimação moral para a atuação política feminina.

A pesquisa fundamenta-se teoricamente na sociologia de Pierre Bourdieu (2021), especialmente nos conceitos de campo, capital simbólico e capital delegado, e dialoga com estudos sobre gênero e participação política no Brasil, como Biroli e Miguel (2014) e Miguel, Marques e Machado (2015). Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, baseada na análise de documentos, entrevistas, material de campanha, discursos públicos e na obra autobiográfica da parlamentar (Costa, 2024).

Os resultados indicam que, embora Priscila Costa seja frequentemente apresentada como uma “mulher sem padrinhos políticos”, sua trajetória é marcada pelo apoio de lideranças religiosas e por uma linhagem pastoral consolidada. Neta, filha e esposa de pastor, Priscila é herdeira de uma tradição religiosa vinculada às grandes lideranças da Assembleia de Deus no Brasil, contando com a atuação direta de seu tio-avô, Wellington Bezerra da Costa, pastor de honra da denominação, bem como de seu pai, José Teixeira Rêgo, pastor da Assembleia de Deus Bela Vista, no Ceará. Ambos desempenham papel central na legitimação simbólica de sua candidatura junto ao eleitorado evangélico.

Argumenta-se que a política se configura como um espaço delegado de atuação para mulheres cristãs neoconservadoras, isto é, mulheres que se inserem no campo político por meio de um capital simbólico herdado da família e do ativismo religioso (Machado, 2020), o que permite sua participação pública sem ruptura com as hierarquias tradicionais de gênero do campo religioso. Tal dinâmica evidencia-se sobretudo no interior da Assembleia de Deus no Brasil, especialmente no Nordeste, onde se mantém uma estrutura hierárquica rígida e uma autoridade marcadamente masculina (Bandini, 2016).
Referências
BANDINI, Claudirene de Paula. Relações de gênero na Assembleia de Deus: uma análise de trajetória feminina. Revista Ciências da Religião – História e Sociedade, [s. l.], v. 13, n. 2, 2016.

BIROLI, Flávia; MIGUEL, Luis Felipe. Feminismo e política: uma introdução. São Paulo: Boitempo, 2015.

BIROLI, Flávia; VAGGIONE, Juan Marco; MACHADO, Maria das Dores Campos. Gênero, neoconservadorismo e democracia: disputas e retrocessos na América Latina. São Paulo: Boitempo, 2020.

BOURDIEU, Pierre. A representação política: elementos para uma teoria do campo político. In: BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. 2. ed. Tradução de Fernando Tomaz. Lisboa: Edições 70, 2021. cap. 7.

COSTA, Priscila. Uma mulher no Congresso e outra no ventre. 1. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2025. 190 p.

MIGUEL, Luis Felipe; MARQUES, Danusa; MACHADO, Carlos. Capital familiar e carreira política no Brasil: gênero, partido e região nas trajetórias para a Câmara dos Deputados. Dados – Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, v. 58, n. 3, p. 721–747, 2015.