Resumo
O estudo analisa a expansão do modelo cívico-militar no contexto das reconfigurações neoliberais e autoritárias que marcam a política brasileira nas últimas décadas, intensificadas pela polarização e pelas disputas em torno do papel do Estado na educação pública. Essas transformações podem ser compreendidas como parte de um movimento mais amplo de reorganização das políticas sociais sob a hegemonia neoliberal, caracterizado pela centralidade da racionalidade gerencial, pela valorização da eficiência e pela ampliação de mecanismos de responsabilização e controle na gestão pública. Parte-se da compreensão de que a militarização escolar não se limita a uma alternativa de gestão, mas se insere em embates mais amplos acerca dos sentidos da democracia, da autoridade e da segurança no espaço público, especialmente em contextos de questionamento das instituições e de fortalecimento de discursos que associam qualidade educacional à disciplina e à hierarquia.
O modelo é examinado como política educacional que tende a reordenar práticas de gestão, disciplina e participação, redefinindo hierarquias internas e produzindo novos padrões de regulação institucional. Ao introduzir novos arranjos administrativos e reorganizar rotinas escolares, a política pode tensionar princípios historicamente associados à escola pública, como participação colegiada e autonomia pedagógica. Argumenta-se que sua institucionalização pode operar como dispositivo contemporâneo de regulação social, legitimado por discursos de ordem, eficiência e segurança, produzindo efeitos relevantes sobre a cultura escolar e as relações entre direção, docentes e estudantes. Nesse sentido, a militarização parece articular racionalidade gerencial e reforço de formas hierarquizadas de autoridade, contribuindo para a redefinição dos modos de organização interna e das expectativas que estruturam a experiência educativa.
A pesquisa adota abordagem qualitativa, articulando análise documental e observação de campo no Colégio Cívico-Militar Hélio Antônio de Souza, no município de Pontal do Paraná. O estado do Paraná destaca-se nacionalmente pela amplitude e velocidade de implementação do modelo, configurando-se como espaço privilegiado para examinar seus desdobramentos e processos de consolidação institucional. A articulação entre dimensão macroestrutural e investigação empírica permite compreender como disputas políticas de alcance nacional se materializam no cotidiano escolar, evidenciando tensões, negociações, acomodações e rearranjos institucionais que atravessam a experiência educativa e reconfiguram práticas e significados.
Ao situar a militarização no interior das transformações políticas contemporâneas e das dinâmicas que vêm reestruturando o Estado e as políticas públicas, o trabalho busca contribuir para o debate sobre democracia, justiça, segurança e controle social, oferecendo uma análise sociológica dos impactos institucionais dessas políticas sobre a escola pública, seus modos de organização e as formas pelas quais se produzem consensos e conflitos em torno da autoridade e da ordem, em um contexto de disputas mais amplas sobre os sentidos da ação estatal e da regulação social.
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