Resumo
A pandemia de COVID-19, ocorrida em 2020, aprofundou diversas contradições já presentes no mundo do trabalho, em especial a ascensão do teletrabalho como estratégia de manutenção das margens de lucro empresariais e do funcionamento das engrenagens do sistema capitalista. Nesse contexto, muitos trabalhadores foram compelidos a aderir a esse novo formato de trabalho, adaptando abruptamente suas vidas e rotinas a uma lógica até então desconhecida por muitos. Paralelamente, o mercado de trabalho passou por intensos processos de reestruturação, marcados por demissões em massa, reduções salariais e de jornada, entre outras formas de flexibilização das relações de trabalho. Diante desse cenário de incertezas, instabilidades e crescente frustração em relação aos empregadores, foi criado um fórum temático na plataforma Reddit, ou subreddit, denominado r/Overemployed, no qual teletrabalhadores se reúnem para compartilhar estratégias de sobrevivência e de subversão das dinâmicas do mundo do trabalho. O foco central desses usuários é o acúmulo simultâneo de dois ou mais empregos em tempo integral sem o conhecimento de seus empregadores, o que é categorizado pelos próprios usuários como uma prática clandestina. O presente trabalho propõe-se, portanto, a descrever o fórum e a prática do overemployment partindo das postagens de seus membros, bem como situar os relatos e ideias ali compartilhados no contexto das transformações do mundo do trabalho, considerando as mudanças nas políticas empresariais e os sentimentos dos trabalhadores em relação a elas, à luz do regime de acumulação flexível, e as estratégias mobilizadas para assegurar o sustento em uma conjuntura de instabilidade. O recorte temporal da pesquisa abrange o período entre 2021, ano de criação do subreddit, e 2024. Foram coletadas, traduzidas e analisadas qualitativamente 29 postagens ao todo, que revelaram uma atitude marcada por profunda frustração e desconfiança em relação aos patrões e às empresas, em grande medida decorrente da inconstância das políticas de adoção do teletrabalho e das decisões relativas ao retorno ao trabalho presencial. Esse cenário leva muitos usuários a suspeitar que, mais do que a produtividade ou os interesses coletivos dos trabalhadores, grande parte das decisões tomadas pelos cargos de chefia estaria orientada pela busca de maior controle sobre o tempo e a vida dos trabalhadores. Observa-se, ainda, entre os adeptos do overemployment, um sentimento de retribuição e de retomada do controle sobre a própria vida. Acumular empregos é uma forma de contornar a insegurança proveniente das grandes demissões e reduções salariais, o que permitiria que os overemployed não se submetessem às chefias, mas que tivessem poder de negociar ao não mais temer o desemprego. Esses indivíduos dividem-se, de modo geral, entre dois perfis: aqueles mais diligentes, preocupados com a execução adequada do trabalho e com uma imagem profissional estável, e aqueles mais displicentes, cujo foco recai sobre o acúmulo de renda e empregos, mesmo que isso implique menor cuidado com as aparências ou com a qualidade do trabalho realizado. Ambos os perfis apontam, todavia, para uma mesma atitude de tentativa de superação da lógica capitalista a partir dos mecanismos do próprio capitalismo.
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