GÊNERO E MIGRAÇÃO NO PARANÁ: UMA ANÁLISE DA DUPLA VULNERABILIDADE A PARTIR DOS REGISTROS DO SISTEMA BOU (2024-2025)

Evento: 14º Seminário Nacional de Sociologia e Política
Atividade/GT: GT 2 - Migrações Internacionais e Fronteiras
Atualizado em: 21/05/2026

Autoria
Autor(a): Marissonia Bortoloto
Resumo
Este trabalho investiga a interface entre gênero e migração a partir dos Boletins de Ocorrência Unificados (BOU) da Secretaria de Segurança Pública do Paraná, abrangendo o biênio 2024-2025. Parte-se da premissa teórica da "dupla vulnerabilidade",a intersecção entre a condição de gênero e a condição de estrangeira, que atua como um fator estrutural que potencializa os riscos de violência e dificulta o acesso a redes de proteção. O recorte foca em mulheres migrantes da Argentina, Venezuela, Haiti, Paraguai e Cuba, as quatro nacionalidades estrangeiras predominantes no registro de ocorrências no período indicado. Paralelamente, observa-se o deslocamento do contato institucional dessas populações para instâncias de segurança, refletindo a aporia estatal entre a lei da hospitalidade incondicional e as barreiras burocráticas que operam na gestão da alteridade. Objetiva-se articular três dimensões críticas resultantes da análise dos registros: a) a vitimização do fluxo vivenciada por migrantes de países fronteiriços (Paraguai e Argentina) em circulação pendular, vitimizadas majoritariamente por crimes patrimoniais cometidos por desconhecidos em zonas de trânsito; b) a vitimização de caráter estrutural e cotidiano entre populações com padrões de fixação (Venezuela, Haiti e Cuba), onde a alta incidência de violência intragrupal e doméstica (cônjuges/companheiros) revela o encapsulamento dessas comunidades em enclaves devido a barreiras linguísticas e ausência de redes de apoio; e c) os conflitos de alteridade e xenofobia no ambiente local, evidenciados nos crimes de injúria e ameaça perpetrados por vizinhos/conhecidos brasileiros. O referencial teórico mobiliza a perspectiva interseccional e transnacional para compreender como as violências baseadas em gênero e a formação de grupos domésticos multisituados moldam as trajetórias destas mulheres. O trabalho dialoga com a Teoria da Prática de Bourdieu, acionando os conceitos de habitus imigrante e capital de mobilidade para entender o grau de inserção e os obstáculos de integração dessas populações no Paraná, bem como com a sociologia da integração e o papel limitador das fronteiras simbólicas (Derrida; Goffman). Metodologicamente, a pesquisa pauta-se pela análise quantitativa da natureza das ocorrências, diferenciando crimes contra o patrimônio, crimes interpessoais e registros vinculados à Lei Maria da Penha. Busca-se analisar as transformações nas relações socioterritoriais demonstrando que o volume de registros não denota apenas o aumento da criminalidade, mas o grau de acesso ou barreira institucional, questionando a eficácia das políticas públicas e sugerindo que o sistema de segurança pública opera como um termômetro das falhas na hospitalidade e na garantia de direitos humanos das mulheres migrantes.
Referências
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Tradução de Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
DERRIDA, Jacques; DUFOURMANTELLE, Anne. Da hospitalidade. Tradução de Antonio Romane. São Paulo: Escuta, 2003.
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