Resumo
Este trabalho analisa o protagonismo feminino nas comunidades caiçaras dos municípios de Antonina, Guaraqueçaba e Morretes, no litoral do Paraná, a partir dos dados produzidos no âmbito do projeto “Apoio ao Desenvolvimento de Pesquisa e Cadeias de Valor da Agrosociobiodiversidade - Criação das Bases de uma Marca Coletiva Regional”, conhecido como “Nossas Marcas”. O estudo dialoga diretamente com os resultados apresentados por Lopes, Biscotto e Freitas (2025), que discutem a marca coletiva como estratégia de fortalecimento do ecossistema empreendedor caiçara e de promoção do desenvolvimento territorial sustentável. Esta pesquisa parte da compreensão de que gênero constitui uma categoria analítica central para interpretar as dinâmicas socioprodutivas e as disputas simbólicas presentes nos territórios tradicionais. A metodologia adotada foi de caráter qualitativo e exploratório, envolvendo pesquisa de campo, aplicação de entrevistas semiestruturadas, rodas de conversa, observação participante e registros em diário de campo. A análise dos dados foi conduzida à luz da análise de conteúdo, permitindo identificar padrões relacionados à divisão sexual do trabalho, às formas de liderança comunitária e à participação nas atividades formativas promovidas pelo projeto. Embora os homens figurem, em muitos casos, como proprietários formais das terras e como representantes institucionais das comunidades visitadas, os dados revelam que as principais atividades relacionadas ao beneficiamento e processamento de alimentos, etapa fundamental para agregação de valor às cadeias produtivas locais, são desempenhadas por mulheres. Tal constatação tensiona a centralidade masculina nas narrativas formais sobre produção e desenvolvimento, evidenciando que as mulheres ocupam uma posição central na produção de saberes, de trabalho e de sustentação econômica cotidiana. Essa tendência também se manifestou nas mentorias realizadas pelo projeto. Foram promovidos dois encontros formativos voltados à gestão, marketing, precificação e uso estratégico da marca coletiva, um na comunidade do Cachoeira, em Antonina, e outro na comunidade do Rio Sagrado, em Morretes. Entre os participantes, aproximadamente 68% eram mulheres. Para além da expressiva presença numérica, observou-se maior engajamento feminino nas discussões e maior interesse em estratégias de formalização e valorização mercadológica. Os achados permitem afirmar que as mulheres ocupam posições estratégicas na consolidação de processos de inovação social e governança territorial. Assim, ao evidenciar o protagonismo feminino nas comunidades caiçaras, este trabalho contribui para deslocar análises centradas exclusivamente em estruturas produtivas formais, reafirmando que gênero constitui uma dimensão fundamental na produção de corpos, sujeitos e saberes no contexto do desenvolvimento territorial contemporâneo.
Referências
LOPES, Letícia; BISCOTTO, Giovanna Eberle; FREITAS, Lara Brunelle Almeida. A marca coletiva como estratégia de fortalecimento do ecossistema caiçara de empreendedorismo e inovação no litoral do Paraná. In: CONFERÊNCIA ANPROTEC, 35., 2025, Foz do Iguaçu. Anais da 35. Conferência ANPROTEC. Foz do Iguaçu: ANPROTEC, 2025. Disponível em: https://informativo.anprotec.org.br/anais-35-conferencia-anprotec. Acesso em: 27 fev. 2026. ISBN 978-65-89414-05-6.
LOPES, Leticia; BISCOTTO, Giovanna Eberle; BRUNELLE, Lara. DO SABER TRADICIONAL À INOVAÇÃO TERRITORIAL: A MARCA COLETIVA COMO VETOR DE FORTALECIMENTO DO ECOSSISTEMA CAIÇARA.. In: Simpósio brasileiro de desenvolvimento territorial sustentável. Anais...Matinhos(PR) UFPR - Setor Litoral, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/v-simposio-brasileiro-de-desenvolvimento-territorial-sustentavel-542255/1223803-DO-SABER-TRADICIONAL-A-INOVACAO-TERRITORIAL--A-MARCA-COLETIVA-COMO-VETOR-DE-FORTALECIMENTO-DO-ECOSSISTEMA-CAICAR. Acesso em: 12/02/2026
TAVARES, Beatriz Carvalho; MINUZZO, Daniela; SANTOS, Annah Bárbara Pinheiro dos. Protagonismo feminino e divisão sexual do trabalho no ambiente rural: articulação do grupo de mulheres residentes e produtoras de café da comunidade Fazenda Alegria, Caparaó - ES. Raízes: Revista de Ciências Sociais e Econômicas, [S. l.], v. 41, n. 1, p. 97–113, 2021. DOI: 10.37370/raizes.2021.v41.696. Disponível em: https://raizes.revistas.ufcg.edu.br/index.php/raizes/article/view/696. Acesso em: 27 fev. 2026.