Resumo
O presente trabalho tem por objetivo interconectar as teses do intelectual francês Guy Debord, expostas em sua obra "A Sociedade do Espetáculo" (1967), com as dinâmicas sociais da contemporaneidade digital. A relevância da pesquisa se justifica pelo fato de que, embora produzida na década de 60, a teoria debordiana arranha na lógica do espetáculo, da exposição e a prevalência da imagem que fundamentam as redes sociais atuais, bem como permite por luz no debate quanto a responsabilidade das Big Techs em relação aos efeitos das plataformas no tecido social. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, utilizando-se do procedimento de revisão bibliográfica integrativa, sob o método dialético, buscando compreender as tensões entre a teoria do espetáculo e a práxis digital contemporânea sob a lógica do Capitalismo Neoliberal. O estudo parte da premissa debordiana de que a sociedade moderna é pautada pelo espetáculo: onde a relação social entre pessoas é mediada por imagens e projeções da realidade. Debord argumenta que o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma visão de mundo que se objetivou. Nesse contexto, a representação da realidade se sobrepõe à própria vivência, transformando o "ser" em "ter" e, finalmente, o "ter" em "parecer", culminando na mercantilização do indivíduo. Historicamente, essa mediação ocorria via meios de comunicação de massa unidirecionais, como a televisão. Contudo, a pesquisa observa que o advento das redes sociais e a plataformização do espaço digital potencializaram essa lógica. Se antes o espetáculo era televisionado, hoje ele é performado individualmente. Sob a égide do "capitalismo do engajamento", promove-se uma cultura da “autoexposição” mediada, onde o usuário se torna simultaneamente espectador e mercadoria. Os "recortes" da vida cotidiana, editados e filtrados, funcionam como enquadramentos que buscam capturar a atenção alheia em uma economia do entretenimento perpétuo e um esvaziamento da privacidade. Ademais, o trabalho traça um paralelo com a tese de Debord sobre o isolamento social produzido pelo espetáculo. Para o autor, o espetáculo reúne o separado, mas o reúne enquanto separado. Nas redes digitais, essa dinâmica é flagrante: embora os indivíduos estejam em constante conexão técnica e interatividade aparente, as interações são frequentemente superficiais e mediadas por algoritmos que reforçam bolhas ideológicas. O resultado é uma forma de solidão conectada, onde a proximidade virtual não se traduz necessariamente em proximidade efetiva ou ação coletiva consciente. Em suma, a pesquisa conclui preliminarmente que o espetáculo contemporâneo não apenas sobreviveu à transição tecnológica, mas se sofisticou, acessando a subjetividade dos indivíduos que agora operam como agentes ativos da própria alienação e enquadrando a realidade tendo como principal influência a forma como as plataformas digitais são atualmente constituídas sob a égide neoliberal.
Referências
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Tradução: Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
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