Resumo
Este trabalho apresenta um estudo sociológico sobre o componente curricular Projeto de Vida, desenvolvido em um colégio estadual de São José dos Pinhais (PR) com estudantes do Novo Ensino Médio, incluindo turmas do ensino regular, técnico e da Educação de Jovens e Adultos (EJA). A pesquisa investiga como os conhecimentos sociológicos podem ser articulados às práticas de ensino nesse componente, analisando os sentidos atribuídos pelos estudantes ao futuro, ao trabalho e à vida, em um contexto marcado por reformas educacionais, plataformização do ensino e racionalidade neoliberal.
Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa, fundamentada na análise de documentos oficiais (BNCC, Lei nº 13.415/2017, Referencial Curricular do Paraná), na produção textual discente e na realização de quatro grupos focais com estudantes do período noturno, trabalhadores e da EJA. Essa estratégia permitiu captar percepções juvenis sobre projeto de futuro, desigualdades sociais, saúde mental, trabalho precoce e expectativas de mobilidade social, revelando tensões entre autonomia proclamada e condições estruturais concretas.
A análise teórica dialoga com os clássicos da Sociologia (Durkheim, Weber, Bourdieu) e com abordagens contemporâneas como Dubet, Beck e Bauman, articulando essas leituras às contribuições de Viktor Frankl e William Damon sobre sentido e propósito. Os resultados indicam que o Projeto de Vida, embora promova reflexões sobre planejamento e autoconhecimento, tem sido implementado de modo padronizado, fortemente mediado por plataformas digitais e materiais prescritivos, frequentemente orientados por uma lógica meritocrática, empreendedora e individualizante.
Sob a perspectiva crítica de Dardot e Laval, o componente revela-se como um dispositivo de produção de subjetividades neoliberais, deslocando para os estudantes a responsabilidade por trajetórias atravessadas por desigualdades sociais, precarização do trabalho e insegurança econômica. Observa-se, nos discursos juvenis, a presença simultânea de aspirações normativas de sucesso e de sentimentos de incerteza, cansaço, ansiedade e ambivalência, evidenciando a necessidade de mediações pedagógicas sociologicamente fundamentadas.
Diante desse diagnóstico, o estudo propõe uma intervenção pedagógica baseada na Sociologia como eixo estruturante do Projeto de Vida, visando reorientar práticas didáticas, fortalecer a formação docente, produzir material pedagógico crítico e ampliar o papel da escola como espaço de reflexão coletiva, esperança, resistência e construção de futuros socialmente situados. Assim, o trabalho contribui para o campo do Ensino de Sociologia, ao demonstrar como o componente Projeto de Vida pode ser ressignificado como prática emancipadora, articulando teoria sociológica, escuta juvenil, crítica curricular e produção de novos horizontes formativos na Educação Básica.
Referências
DURKHEIM, Émile. Educação e Sociologia.
WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo.
BOURDIEU, Pierre. A reprodução.
DUBET, François. Sociologia da experiência.
DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo.
FRANKL, Viktor. Em busca de sentido.
DAMON, William. O caminho do propósito.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida.
BECK, Ulrich. Sociedade de risco.
ZANLORENZI, Maria. Plataformização e desintelectualização docente.