Um mercado de direitos humanos: por que as empresas adotam a agenda de direitos humanos?

Evento: 14º Seminário Nacional de Sociologia e Política
Atividade/GT: GT 17 - Ruralidades, Meio Ambiente e Emergências Climáticas
Atualizado em: 21/05/2026

Autoria
Autor(a): Alex Eduardo Bonotto Miczevski
Coautores: Jaime dos Santos Junior
Resumo
Os recorrentes desastres socioambientais ocasionados pela atividade empresarial nas últimas décadas mobilizaram movimentos sociais, sociedade civil e a academia. Um dos resultados desse movimento foi o lançamento dos Princípios Orientadores sobre Empresas e Direitos Humanos pelas Nações Unidas. Este dispositivo introduziu a lógica da responsabilização corporativa, levando empresas de setores de alto impacto a incorporarem agendas de Direitos Humanos em suas estratégias de gestão. É nesse cenário de conflitos socioambientais e emergências climáticas que esta pesquisa se insere, buscando compreender o seguinte problema: por que determinadas empresas passaram a adotar a agenda de Empresas e Direitos Humanos (EDH)?
A intenção não é buscar respostas meramente instrumentais, mas sim compreender essa adoção como uma dinâmica de mercado. Se antes as empresas avaliavam riscos pautando exclusivamente a lucratividade, agora passam a considerar os riscos aos "detentores de direitos". Esses podem ser os mais variados indivíduos ou grupos, como comunidades tradicionais, assentamentos rurais, sindicatos e/ou trabalhadores, cuja violação de direitos pode, direta ou indiretamente, afetar seus modos de vida e, consequentemente, a continuidade e a lucratividade dos negócios. A pesquisa tem como objeto, portanto, a relação de compra e venda que constitui o mercado de serviços especializados em EDH, investigando como a gestão de riscos baseada em pessoas se torna um produto.
Para analisar essa dinâmica, propomos compreender este mercado como o que Mauss (2003) chama de "fato social total". Isso implica investigar como esse fenômeno econômico mobiliza, simultaneamente, múltiplas dimensões da experiência social, seja jurídica, política, social ou moral, envolvendo representações dos agentes concretos que participam das instituições que compõem o campo econômico. O arcabouço teórico dialoga com a sociologia econômica e com os debates sobre novos atores e a mercantilização da natureza e de elementos da vida social. Embora se tratando de uma ferramenta distinta, mas com um propósito semelhante, Lobo (2006) entende a Responsabilidade Social Corporativa, como um mito racional difundido por agentes que se identificam com o tema e constroem uma lógica de que existirão ganhos econômicos com sua adoção, vendendo internamente o discurso dessa adoção, mesmo em casos onde isso sequer é efetivamente comprovado.
A investigação, de tipo qualitativa, será operacionalizada por meio de um estudo aprofundado sobre a relação de compra e venda entre os agentes das consultorias especializadas em EDH e os que compõem os setores das corporações que as contratam, normalmente o de Responsabilidade Social. Para isso, será conduzida uma observação participante em espaços de trabalho dos consultores, bem como a realização de entrevistas com consultores e trabalhadores das empresas, buscando apreender suas representações sobre o tema, seu discurso de venda e as motivações de compra.
Espera-se, com esta pesquisa, contribuir para a sociologia ambiental ao investigar essa nova ferramenta de gestão corporativa dos impactos socioambientais sobre indivíduos e comunidades. Ao analisar o mecanismo por trás da adoção da agenda de EDH, o estudo pretende trazer insumos para pensar criticamente os caminhos de operacionalização da agenda, possibilitando aprofundar o processo de prevenção e remediação de impactos adversos às condições de vida das comunidades afetadas.
Referências
LOBO, Cinara Gomes de Araújo. Por que as empresas investem em responsabilidade social? 2006. 293 f. Tese (Doutorado em Sociologia) - Universidade de Brasília, Brasília, 2006.

MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas. [1925] In: MAUSS, M. Sociologia e antropologia. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Cosac Naify, 2003.