Este trabalho analisa a política de guerra às drogas no Brasil como tecnologia de governo (Foucault, 2012) no interior do neoliberalismo punitivo. Partindo do relato de uma mulher usuária de substâncias psicoativas em situação de vulnerabilidade social, argumenta-se que a criminalização das drogas opera como mecanismo de gestão da miséria e de produção de sujeitos descartáveis. Longe de constituir mera política de segurança pública ou saúde, a guerra às drogas articula controle social, moralização da pobreza e expansão dos dispositivos penais.
O argumento dialoga com a formulação de Loïc Wacquant (2001) acerca da transição do Estado social para o Estado penal, evidenciando a hipertrofia do braço punitivo e a atrofia das políticas de proteção social. A partir dessa chave interpretativa, demonstra-se como instituições formalmente protetivas podem operar sob a lógica disciplinar e ameaçadora, antecipando a criminalização de corpos pobres. No contexto brasileiro, essa dinâmica se articula ao racismo estrutural, que organiza a distribuição da violência e das garantias de direitos, operando como fundamento histórico da seletividade penal (Almeida, 2021).
Em diálogo com Achille Mbembe (2018), sustenta-se ainda que a guerra às drogas produz zonas de suspensão da cidadania, nas quais determinados sujeitos são tratados como vidas descartáveis, submetidas à violência policial e à desumanização cotidiana. Igualmente, resgata-se o conceito de cidade colonizado de Fanon (2022), para explicitar a estrutura colonizadora a quais essas zonas estão sujeitas, essa a qual é responsável pela reprodução da morte.
A abordagem repressiva não apenas retira o amparo social, mas ativa mecanismos de punição que transformam vulnerabilidades estruturais em falhas morais individuais, legitimando a exclusão econômica e a precarização das trajetórias de vida.
Por fim, mobilizando Stuart Hall (2003), argumenta-se que o relato da entrevistada constitui uma contra-narrativa que tensiona o apagamento imposto pela lógica proibicionista, reivindicando direitos e reconfigurando sua posição como sujeito político. A experiência analisada revela como a produção de identidades desviantes integra o próprio funcionamento do controle social contemporâneo.
Metodologicamente, o trabalho baseia-se em entrevista em profundidade realizada em 2022, aprovada por Comitê de Ética, cuja releitura à luz da sociologia política permite articular experiência vivida e estrutura social. Sustenta-se que o caso analisado não constitui exceção, mas expressa o funcionamento nefasto do neoliberalismo punitivo brasileiro, no qual a guerra às drogas atua como instrumento de controle social, racialização e reprodução das desigualdades.
Referências
ALMEIDA, Silvio. Racismo estrutural. São Paulo: Sueli Carneiro, 2021.
FANON, Frantz. Os Condenados da Terra. Rio de Janeiro: Zahar, 2022.
FOUCAULT, Michel. Segurança, Penalidade e Prisão. Tradução: Vera Lucia Avellar Ribeiro. Rio de Janeiro. Forense Universitária. Ditos e Escritos vol. 8. 2012.
HALL, Stuart. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: UFMG, 2003.
MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.
WACQUANT, Loïc. As prisões da miséria. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.