Resumo
O trabalho busca analisar o Ghetto, espaço localizado no bairro Jardim Cavalari, Zona Oeste da cidade de Marília-SP. Caracterizado por ser um espaço DIY - Do It Yourself, (Faça você mesmo), concerne ações de autoconstruções de rampas, corrimões, transições, e diversos obstáculos desenvolvidos por skatistas locais da cidade, apropriando-se assim de um lugar abandonado pela prefeitura local, modificando-o à sua maneira. Jean Oliveira Moura (2023) destaca que o DIY é um reflexo do que é, ou deveria ser, o skate na sua “essência”, um grupo que mantém compromissos com a diversão, ocupação e ressignificação do espaço urbano e descompromisso com o esportivo. Destaco sobre qual skate retrato no projeto, o skate street, conhecido como skate de rua, classificado como uma atividade clandestina à ortodoxia da cidade, concretizando-se em sua forma citadina - um neologismo derivado do termo francês citadinité, um contraponto à ideia de cidadania - considerada aqui como o fazer-cidade (Agier, 2011).
Para Cirino (2024), os skatistas produzem alterações na cidade, apropriam-se de espaços antes inutilizados ou subutilizados, viabilizam construções de performances, eventos, marcas, moda, música, e diversos elementos. Criam condições para usos e contra-usos, bem como novas relações no espaço urbano. Em congruência, segundo Caldeira (2012), são os jovens, os protagonistas das novas práticas urbanas, gerando condições de visibilidade às camadas subalternas. Jovens que supostamente deveriam circular por outros locais, menos visíveis, passam a ocupar o espaço público, imprimindo nele suas marcas, reivindicando direitos sobre ele e a transformá-lo também como espaço de lazer, rompendo com as fronteiras de segregação e pluralizando a ocupação do território metropolitano.
Nesta lógica, os skatistas de rua representam uma resistência da cidade do valor de uso (David, 2014). A prática desses sujeitos, reinventando o espaço urbano a partir de seus valores e suas experiências, subvertem o pensamento ordenador da vida urbana e à ortodoxia do que temos de cidade, transformando o Ghetto, em um lugar nas características apresentadas por Rogério Proença Leite (2007), um espaço de convergências simbólicas, resultante de experiências compartilhadas mediante alguma possibilidade de entendimento sobre o que significa um certo espaço e sobre o que representam certos conteúdos culturais partilhados.
O projeto de método qualitativo e estudo bibliográfico, busca apresentar como os espaços construídos pelos skatistas, constituem-se uma fuga à disciplinaridade e domesticação de corpos indesejáveis pelo poder público no âmbito do skate urbano, e como tais espaços são opostos de pistas de skates tradicionais, as quais, só vieram ser construídas a partir da necessidade dos órgãos públicos de delimitar e disciplinarizar a prática do skate de rua, como destaca Brandão (2008). Recorrendo aos skatistas locais e fontes dos próprios skatistas como revistas e mídias especializadas, compreenderemos a relação entre eles e os espaços DIY, trazendo a hipótese de como uma área, intitulado de Ghetto se apresentaria como uma resistência ao controle de corpos exercidos por uma pista de skate tradicional, e à uma ortodoxia do que temos de cidade, transformando-se em um espaço de encontro, sentidos e significados para os skatistas e citadinos locais.
Referências
AGIER, Michel. Antropologia da cidade: lugares, situações, movimentos. São Paulo:
Terceiro Nome, 2011.
BRANDÃO, Leonardo. Entre a marginalização e a esportivização: elementos para uma história da juventude skatista no Brasil. Recorde: Revista de História de Esporte volume 1, número 2, dezembro de 2008
CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Inscrição e circulação: novas visibilidades e configurações do espaço público em São Paulo. Novos estudos CEBRAP, n. 94: 31-67, 2012. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0101-33002012000300002» https://doi.org/http://dx.doi.org/10.1590/S0101-33002012000300002
CIRINO, Giovanni. “Mexendo o doce”: uma aproximação etnográfica do skate de rua DIY. Trabalho apresentado na 34ª Reunião Brasileira de Antropologia, GT 75 “Mundos em Performance” (Ano: 2024).
DAVID, José Vitor Carignato. Uma ilha lúdica em meio ao caos: as vivências, correrias e
tretas dos skatistas de rua no novo Vale do Anhangabaú. XIV RAM - Reunião de Antropologia do Mercosul, 2023
LEITE, Rogerio Proença. Contra-usos da cidade: Lugares e espaço público na experiência urbana contemporânea - 2° Ed. - Campinas, SP: Editora da Unicamp; Aracaju, SE: Editora UFS, 2007.
MOURA, Jean Oliveira. Subculturas do skate: Um estudo a partir das experiências Araruama skate (2010-2020) e Jiboia DIY. 2023 DOI:10.13140/RG.2.2.35291.54566
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