Resumo
Essa análise explora as percepções de pertencimento social produzidas a partir do rap feminino e da literatura negra, compreendendo-as como expressões culturais afro-brasileiras contemporâneas, e tendo como base estudos da Sociologia da Cultura e das Relações Étnico-raciais para entendê-las. Desse modo, essa investigação se baseia em dois conceitos fundamentais: a estrutura de sentimento, de Raymond Williams (2025), sob a concepção de que sociedade e cultura não podem ser compreendidas de maneira dissociada, uma vez que, como afirma o autor, “Se a arte é parte da sociedade, então não há um todo sólido fora dela” (Williams, 2025, p. 60), privilegia-se, assim, uma perspectiva relacional para entender essas expressões culturais popularmente negras na sociedade brasileira em consonância à outras instâncias da vida social, dadas as características sociais da literatura, como argumenta Alfredo Bosi (2002), em que a criação de uma narrativa fantástica consegue tamanha profundidade, sendo capaz de abarcar para além da vida cotidiana daqueles que são retratados e seus leitores, agregando compreensões sociais desde seu cerne, devido a isto, possui um impacto tão grande ao que tange a identidade daqueles que estão sendo descritos, “É nesse horizonte que o espaço da literatura, considerado em geral como o lugar da fantasia, pode ser o lugar da verdade mais exigente” (Bosi, 2002, p. 135); e a produção de localidade, de Arjun Appadurai (1996), uma construção coletiva de um espaço que se almeja viver, uma localidade que afeta e é afetada pelas expressões culturais, em especial a performance musical, segundo Reily (2021), “Nossas emoções moldam os nossos sentimentos sobre os lugares que ocupamos e àqueles com quem os compartilhamos. Pode-se dizer, portanto, que promovem a formação de “geografias emocionais” (Smith et al 2009), levando-nos a “sentir” os espaços que nos cercam e a avaliá-los em relação a estes sentimentos.” (Reily, 2021, p. 13). Assim, este estudo considera as expressões culturais aqui analisadas como tecnologias coletivas que produzem a localidade para a população negra e periférica. Dadas essas compreensões, objetiva-se a seguinte questão sociológica: entendendo a cultura como componente essencial à estrutura de sentimento, como a literatura negra e o rap feminino têm possibilitado a criação de novos espaços de pertencimento à população afro-brasileira? Essa pesquisa foi desenvolvida de forma qualitativa e, para responder a questão, mobilizadou-se a metodologia de revisão bibliográfica, visando entender, ampliar e comparar as concepções teóricas apresentadas, relacionando-as ao contexto sócio-cultural negro brasileiro, em um panorama sócio-histórico e contemporâneo.
Referências
APPADURAI, Arjun. The production of locality. In: Counterworks. Routledge, 2003. p. 208-229.
BOSI, Alfredo. Narrativa e Resistência. In: ______. Literatura e Resistência. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p. 118 - 135.
REILY, Suzel Ana. O musicar local e a produção musical da localidade. GIS-Gesto, Imagem E Som-Revista De Antropologia, v. 6, n. 1, 2021.
WILLIAMS, Raymond. A Longa Revolução. Tradução de Ugo Rivetti. 1° ed. São Paulo: Edusp, 2025.