Resumo
A Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), instituída em 2006 no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), ampliou o reconhecimento estatal de múltiplas racionalidades médicas e consolidou a presença das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) como política pública. Passadas duas décadas, a adesão às PICS ainda encontra resistências que não se explicam apenas por limitações estruturais, mas por dimensões simbólicas, culturais e sensíveis que atravessam as experiências de cuidado e as representações sobre o corpo saudável. O presente estudo tem como objetivo analisar os fatores culturais que dificultam a consolidação das PICS no SUS. Parte-se do pressuposto de que tais resistências estão relacionadas à hegemonia histórica da biomedicina como formação cultural dominante no campo da saúde. A análise articula três eixos teóricos. Primeiro, a noção de hegemonia cultural permite compreender como o paradigma biomédico se naturalizou como único saber legítimo, estruturando representações sociais do corpo e da doença. Segundo, a perspectiva do biopoder evidencia que a medicalização da vida produziu sujeitos que delegam ao saber médico autoridade sobre seus corpos, conformando modos de subjetivação marcados pela dependência da intervenção farmacológica. Terceiro, o conceito de “habitus” biomédico contribui para explicar como tais disposições são incorporadas e reproduzidas no cotidiano, operando uma violência simbólica que deslegitima saberes não hegemônicos ao moldar sensibilidades expectativas e percepções sobre práticas de cura. Trata-se de estudo qualitativo, de natureza teórico-analítica, fundamentado em revisão crítica da literatura na área da sociologia da saúde e dos estudos culturais, dialogando com pesquisas empíricas que evidenciam resistências simbólicas às PICS no cotidiano dos serviços. Os resultados indicam que as barreiras à aceitação das PICS operam em múltiplos níveis: epistemológico, cultural e histórico. Saberes tradicionais foram historicamente desqualificados, produzindo sua invisibilização no espaço público da saúde. Ao mesmo tempo, os usuários internalizam representações que vinculam cuidado legítimo à intervenção medicamentosa, estruturando sentimentos de insegurança ou descrédito diante de abordagens integrativas. Mais do que um modelo técnico-científico, a biomedicina constituiu-se como referência legítima sobre o corpo, a doença e o tratamento, produzindo representações sociais que associam cuidado eficaz à prescrição medicamentosa, ao exame diagnóstico e à intervenção tecnológica. Nesse contexto, sair de uma consulta sem receita pode gerar, para muitos usuários, a sensação de não ter sido devidamente atendido, revelando expectativas culturalmente construídas sobre o que significa “cuidar” e “tratar”. Assim, a resistência às PICS não deve ser interpretada como ignorância ou ineficiência, mas como expressão coerente de um processo histórico de disciplinamento dos corpos e formação de sensibilidades biomédicas. Conclui-se que a institucionalização dessas práticas é compreendida como arena de disputas por legitimidade, na qual diferentes racionalidades médicas concorrem por reconhecimento social e institucional. Assim, a consolidação da PNPIC exige enfrentar as dimensões simbólicas e afetivas do cuidado, promovendo educação em saúde culturalmente orientada e ampliando o reconhecimento público das diferentes racionalidades médicas. Ao articular corpo, cuidado e sensibilidades, o estudo contribui para o debate sobre pluralidade epistemológica e democratização do cuidado no SUS.
Referências
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