Este trabalho analisa a feminização do cárcere no Brasil e no Paraná, a partir da Lei de Drogas (11.343/2006), como eixo estruturante da expansão do encarceramento feminino e como produtora do “isolamento afetivo estrutural”. Parte-se da hipótese de que a política de drogas, ao incidir de maneira seletiva sobre mulheres em contextos de vulnerabilidade socioeconômica, não apenas amplia o contingente feminino privado de liberdade, mas desorganiza suas relações familiares e territoriais, provocando o enfraquecimento duradouro dos vínculos de cuidado e convivência. A pesquisa dialoga com a crítica ao neoliberalismo e ao Estado penal na atualidade, compreendendo o aprisionamento físico como instrumento de gestão das populações oprimidas, invisíveis e excluídas da sociedade. O estudo articula revisão de literatura nacional e latino-americana com análise documental, dados estatísticos oficiais e relatos qualitativos produzidos no contexto do Paraná, evidenciando que a concentração espacial das unidades prisionais femininas; a ausência de dados desagregados sobre visitação e a escassez econômica crônica das famílias, contribuem para a fragilização das conexões familiares no âmbito estadual. Os achados indicam que a prisão de mulheres pela política de drogas gera impactos extramuros cumulativos, intensificando a dissolução de redes de apoio e ampliando a exposição à precariedade social, após o cumprimento da pena. Sustenta-se que o “isolamento afetivo estrutural” não deve ser compreendido como abandono individual, mas como consequência do funcionamento do sistema penal contemporâneo. A categoria proposta articula dimensões econômicas, territoriais e simbólicas da punição, deslocando o foco da privação da liberdade feminina para os impactos estruturais da pena sobre suas redes de pertencimento.
Ao evidenciar essa dimensão pouco explorada da experiência prisional feminina, o estudo contribui para o debate sociológico e jurídico ao afirmar a urgência de revisão da legislação antidrogas, da incorporação da dimensão vincular na formulação das políticas penais e necessidade da institucionalização de mecanismos de produção regular e padronizada de dados sobre visitação e manutenção de vínculos familiares no sistema prisional brasileiro, de modo a reconhecer que a pena produz impactos sociais que transcendem a sentença judicial e alcançam o tecido relacional das mulheres encarceradas.
Palavras-chave: feminização do cárcere; política de drogas; isolamento afetivo estrutural; mulheres encarceradas; Estado penal.
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