Resumo
A presente pesquisa discute e analisa os assassinatos de Ildvan Farias (2019) e Ana Carolina Câmpelo (2023), jovens homossexuais violentamente mortos em regiões interioranas do Maranhão, com o objetivo de identificar como as violências direcionadas a corpos negros e LGBTQIA+, expressas nesses casos, revelam a articulação entre raça, gênero, sexualidade e classe na dinâmica do capitalismo brasileiro. No final de janeiro de 2019, Ildvan Silva Farias foi dado como desaparecido e, dias depois, partes de seu corpo foram encontradas espalhadas pela cidade de Presidente Médici (MA). O assassino foi encontrado pela polícia e confessou o crime. No G1 Maranhão (2019), é noticiado que um “homem é preso por matar e esquartejar gay em Presidente Médici (MA)”, respondendo pelo crime de homofobia, homicídio qualificado e ocultação de cadáver. Já em dezembro de 2023, no município de Maranhãozinho (MA), localizado a 15,8 km de Presidente Médici, Ana Carolina Câmpelo foi sequestrada e brutalmente assassinada ao retornar do trabalho, encontrada com marcas de desfiguração em seu rosto. Segundo o G1 Maranhão (2025), o Ministério Público reconheceu que o crime foi motivado por razões relacionadas à condição de sexo feminino da vítima. Outrossim, Ana era lésbica e havia se mudado recentemente para a cidade para viver com sua companheira. Enquanto o primeiro condenado encontrava-se “solto” um ano após a prisão, o segundo, Elizeu Carvalho de Castro, foi sentenciado, em 2025, a mais de vinte e sete anos de reclusão. Consideradas estas condições, percebe-se o modo particular como a vida e a morte desses sujeitos são atravessadas por determinações políticas, sociais e econômicas que excedem a esfera individual. A experiência de indivíduos cujas existências dissidem do padrão normativo correspondente à hegemonia eurocêntrica, consolidada desde a colonização (BUTLER, 2014; BANIWA, 2019), insere-se em um processo histórico de hierarquização que, com a expansão do capitalismo brasileiro, estruturou formas específicas de exploração e marginalização, dadas na reprodução social de vida (SAFFIOTI, 1976; MOURA, 1988). Importa observar, ainda, as condições que permitem a naturalização recorrente da violência a que mulheres, pessoas negras e LGBTQIA+ são submetidas. A própria construção da nação brasileira consolidou um padrão de sociabilidade em que tais sujeitos ocupam posições historicamente precarizadas, tornando-se mais expostos à violência material e simbólica. Nesse sentido, ao identificar tais determinações, retira-se o papel exclusivamente individual na reprodução da violência e reconhecem-se as circunstâncias coletivas que a tornam possível e socialmente legitimada. Dessa forma, os assassinatos analisados evidenciam uma lógica estrutural de controle e reprodução social, manifestada tanto na vulnerabilidade econômica, territorial e simbólica das vítimas, quanto na naturalização dessas mortes pelas normas sociais dominantes e pelas formas institucionais de gestão da violência.
Referências
BANIWA, Gersem Luciano. Antropologia colonial no caminho da antropologia indígena. Novos Olhares Sociais, v. 2, n. 1, p. 22-40, 2019.
BUTLER, Judith. Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto?. Civilização brasileira, 2014.
G1 MARANHÃO. Caso Ana Caroline: Justiça rejeita recurso e suspeito de matar jovem lésbica irá a júri popular no Maranhão. G1 Maranhão, São Luís, 28 abr. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2025/04/28/caso-ana-caroline-justica-rejeita-e recurso-e-suspeito-de-matar-jovem-lesbica-ira-a-juri-popular-no-maranhao.ghtml. Acesso em: 04 jun. 2025.
G1 MARANHÃO. Homem é preso por matar e esquartejar gay em Presidente Médici. G1 Maranhão, São 30 jan. 2019. Disponível em: https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2019/01/30/homem-e-preso-por-matar-e esquartejar-gay-em-presidente-medici.ghtml. Acesso em: 04 jun. 2025.
MOURA, Clóvis. Sociologia do Negro Brasileiro. São Paulo: Editora Ática, Série Fundamentos, 1988.
SAFFIOTI, Heleieth. A mulher na sociedade de classes: mito e realidade. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1976.