Resumo
Este trabalho apresenta resultados parciais de uma pesquisa de doutorado em andamento que, por meio da autoetnografia, investiga um terreiro de Umbanda localizado na região metropolitana de Curitiba (PR), com o objetivo de compreender processos de socialização religiosa, bem como dinâmicas de continuidade e transformação da Umbanda. Inserida no campo das sociologias da saúde, das sensibilidades e da religião, a pesquisa analisa o terreiro como espaço de produção de saberes, vínculos e práticas de cuidado, articulando dimensões espirituais, corporais e emocionais da experiência religiosa.
A partir desse enquadramento mais amplo, o trabalho focaliza a atuação da Preta Velha como um recorte analítico privilegiado para compreender modos específicos de cuidado, bem-estar e reorganização do sofrimento no contexto umbandista. Sustenta-se que a Umbanda não opera apenas como sistema ritual ou crença religiosa, mas como prática cotidiana de cuidado, na qual saúde e adoecimento são compreendidos de forma relacional, atravessados por histórias pessoais, coletivas e ancestrais.
Do ponto de vista teórico, parte-se da compreensão de que saúde e sofrimento são experiências socialmente construídas, sensíveis às condições de vida, às relações e aos afetos. Nesse sentido, as Pretas Velhas ocupam lugar central nos processos de socialização religiosa, ensinando, por meio da escuta, da palavra, do gesto e do silêncio, modos de lidar com a dor, o cansaço e as adversidades da vida. O cuidado que oferecem não se orienta pela lógica biomédica da cura imediata, mas pela sustentação do sujeito em seu sofrimento, permitindo que este seja narrado, acolhido e resignificado.
Metodologicamente, a pesquisa adota a autoetnografia como estratégia de investigação, assumindo a implicação da pesquisadora enquanto mãe de santo e participante do campo. Essa escolha possibilita acompanhar, de forma situada, os processos de aprendizado, incorporação e transmissão de saberes no terreiro, evidenciando como o cuidado é socialmente produzido e compartilhado no cotidiano ritual.
A análise destaca práticas como o benzimento, o uso de ervas medicinais, banhos, chás e orientações simples, que articulam saberes ancestrais, atenção ao corpo e sensibilidade ao tempo do outro. Essas práticas operam como tecnologias de cuidado e bem-estar, produzindo efeitos na experiência dos consulentes e reforçando vínculos comunitários. Ao mesmo tempo, constituem importantes mecanismos de socialização religiosa, por meio dos quais valores, hierarquias e modos de estar na Umbanda são transmitidos e atualizados.
Ao examinar a atuação das Pretas Velhas nesse contexto, o trabalho contribui para compreender como a Umbanda se mantém viva por meio da circulação de saberes, da adaptação às demandas contemporâneas e da preservação de fundamentos ancestrais. Assim, a Umbanda emerge como um campo legítimo de produção de cuidado, saúde e conhecimento, no qual corpo, espiritualidade e sensibilidade se entrelaçam na construção da experiência religiosa.
Palavras-chave
Umbanda; Preta Velha; cuidado; saúde e bem-estar; sensibilidades; autoetnografia.
Referências
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