Resumo
O trabalho propõe uma análise sociocultural da montagem Borandá (2025), dirigida por Hélio Fróes e realizada pelo Grupo Teatral Gambiarra, grupo estudantil da rede pública de Goiânia (GO), a partir do uso das cores e das materialidades cênicas como elementos centrais na construção da narrativa sobre a vida migrante no Brasil. A encenação parte do texto já conhecido Borandá – Auto do Migrante, de Luís Alberto de Abreu, obra estruturada em três sagas que retratam a jornada de migrantes em direção a São Paulo, evidenciando esperanças, memórias, saudades e afetos ligados ao deslocamento. Partindo da Sociologia da Cultura e dos estudos de cultura visual, entende-se a estética da cena não apenas como escolha formal, mas como linguagem que produz sentidos sociais, afetivos e políticos.
A montagem, organizada em três histórias de viajantes, articula cromatismo, texturas, figurino, cenografia e iluminação para construir visualmente ideias de deslocamento, memória e pertencimento. Nesse sentido, as cores funcionam como mediadoras de atmosfera, ajudando a instaurar sensações de trânsito, instabilidade e continuidade, enquanto as texturas e materialidades cênicas evocam trajetórias, desgaste, adaptação e resistência, aspectos diretamente ligados à experiência migrante. Ao dialogar com uma dramaturgia já consolidada sobre a migração interna no Brasil, a encenação reforça, por meio da visualidade, dimensões simbólicas do percurso migrante que atravessam o imaginário social brasileiro.
Assim, tecidos, superfícies e elementos de cena deixam de atuar apenas como composição estética e passam a operar como dispositivos simbólicos que estruturam a percepção do espectador e aprofundam a dimensão sociocultural da narrativa. O figurino é analisado de forma integrada a esse conjunto visual, contribuindo para a construção de corpos em deslocamento e identidades em trânsito, sem ser tratado como elemento isolado. Além disso, por se tratar de uma produção de um grupo estudantil da rede pública, considera-se também a dimensão formativa e política do processo criativo, entendendo a cena como espaço de elaboração sensível sobre a realidade social contemporânea. Metodologicamente, o artigo se baseia na análise imagética da composição cênica, com foco no cromatismo e nas materialidades como eixos principais para compreender como a visualidade de Borandá constrói, de forma sociocultural, uma narrativa estética sobre a experiência migrante no contexto brasileiro.
Referências
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