Ondas de regionalismo e integração da infraestrutura na América do Sul: contradições entre discurso e produção regional de um espaço integrado
Evento: 14º Seminário Nacional de Sociologia e Política
Atividade/GT: GT 6 - Pensamento Político na América Latina
Atualizado em: 22/04/2026
Autoria
Autor(a): Eduarda Figueiredo Scheibe
Resumo
Há diferentes periodizações para o que se convencionou chamar de ondas de regionalismo latino-americano. Nessas, as fases mais recorrentemente identificadas a partir do século XX podem ser distinguidas, grosso modo, como a de um regionalismo desenvolvimentista, entre as décadas 1960 e 1980, a de um regionalismo aberto (e neoliberal), característico das iniciativas de integração surgidas na década de 1990, e uma fase mais recente, embora entendida como esvaziada a partir de 2016, identificada como sendo de um regionalismo pós-hegemônico (Riggirozzi et Tussie, 2012) ou pós-neoliberal (MacDonald e Ruckert, 2009), entre outros termos, a depender, inclusive, da área de estudo. Ao longo de todos esses períodos, contudo, e inclusive em momentos de recuo do ímpeto regionalista na América Latina, a integração da infraestrutura produtiva é entendida como condição para a realização dos objetivos regionais e/ou integracionistas. Objetivos estes frequentemente sintetizados pela expressão “desenvolvimento regional”.
Neste trabalho, mobilizamos os conceitos de produção e valorização do território, desenvolvidos na obra do geógrafo crítico Antonio Carlos Robert de Moraes (Moraes e Costa, 1987; Moraes, 2000a, 2000b), para identificar coerências e contradições entre as ondas históricas de regionalismo latino-americano e os planos de integração física produtiva no subcontinente, com particular enfoque sobre os megaprojetos de corredores bioceânicos na América do Sul. A partir dos conceitos propostos desde a geografia, entendemos os planos de integração física como estratégias de valorização e produção de um espaço regional integrado e buscamos examinar os elementos de ruptura e continuidade nos planos de integração física no subcontinente à luz das ondas de regionalismo. Nossa hipótese central é de que os corredores bioceânicos e as diferentes nomenclaturas que lhe são atribuídas ao longo das décadas revelam contradições intrínsecas desde a lógica que fundamenta seu planejamento. O que tem sido observado é que, ao priorizarem a construção de corredores logísticos para exportação de produtos primários, contribuem com a continuidade e renovação de práticas (neo)extrativistas (Gudynas, 2009; Svampa, 2011). A sistematização e o estudo em paralelo das ondas de regionalismo e do(s) paradigma(s) que regem a integração física em nosso subcontinente, todavia, são úteis no sentido de contribuir para a avaliação crítica dos objetivos regionais enunciados em diferentes momentos frente aos esforços investidos regionalmente na produção de um espaço integrado.
Referências
GUDYNAS, Eduardo. “Diez tesis urgentes sobre el nuevo extractivismo: contextos y demandas bajo el progresismo sudamericano actual”, Extractivismo, política y sociedad, 2009.
MACDONALD, Laura ; RUCKERT, Arne (eds.). Post-neoliberalism in the Americas, International Political Economy Series, Londres: Palgrave Macmillan, 2009.
MORAES, A. C. R.; COSTA, W. M. Geografia Crítica: a valorização do espaço. São Paulo: Hucitec, 1987.
MORAES, Antonio Carlos Robert. Bases da formação territorial do Brasil. O território colonial brasileiro no "longo" século XVI. São Paulo: Editora Hucitec, 2000a.
MORAES, Antonio Carlos Robert. Capitalismo, geografia e meio ambiente. 2000. Tese (Livre Docência) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2000b.
RIGGIROZZI, Pía ; TUSSIE, Diana (eds.). The rise of post-hegemonic regionalism: the case of Latin America, United nations series on regionalism, vol. 4, Londres: Springer, 2012.
SVAMPA, Maristella. “Néo-'développementisme' extractiviste, gouvernements et mouvements sociaux en Amérique latine”, Problèmes d'Amérique latine, vol. 3, n. 81, 2011, p. 101-127.