Samba,Gênero e violência Urbana - a morte de uma passista no Carnaval tranquilo de Curitiba

Evento: 14º Seminário Nacional de Sociologia e Política
Atividade/GT: GT 12 - Corpo, Gênero e Sexualidade
Atualizado em: 21/05/2026

Autoria
Autor(a): Leonardo Jackson de Lima
Resumo
Este trabalho analisa o assassinato de Maria Erenilde Lopes, conhecida como Soninha Garagem, passista da Escola de Samba Colorado, ocorrido em Curitiba na madrugada de 22 de fevereiro de 1974. A pesquisa investiga o caso a partir de documentação jornalística da época, registros históricos do carnaval curitibano e narrativas orais, buscando compreender como a morte de uma mulher negra, jovem, pobre e integrante do universo do samba revela dinâmicas estruturais de vulnerabilidade social e apagamento simbólico.
Soninha, com 24 anos, era passista principal da Escola de Samba Colorado havia cinco anos e figura reconhecida no carnaval local. Seu assassinato ocorreu após um ensaio da escola, em espaço público, e teve repercussão na imprensa. Entretanto, apesar da comoção popular expressa no velório e no enterro, observa-se posteriormente um processo de silenciamento em relação à sua memória, evidenciado pela escassez de homenagens institucionais e pela ausência de registros consolidados sobre sua trajetória.
A pesquisa parte da hipótese de que o caso evidencia a intersecção entre gênero, raça e classe social na produção da vulnerabilidade. Inserida em um contexto urbano marcado pela marginalização das expressões culturais populares, especialmente o samba, Soninha representava uma presença feminina e negra em um espaço historicamente tensionado na cidade. A análise dialoga com perspectivas sociológicas que compreendem a violência contra mulheres como fenômeno estrutural, bem como com estudos sobre memória social e invisibilização de sujeitos subalternizados.
Metodologicamente, o estudo baseia-se em pesquisa documental em jornais da época, análise discursiva das narrativas construídas pela imprensa e entrevistas com antigos sambistas que conviveram com Soninha na Escola de Samba Colorado. A oralidade revelou elementos que tensionam a versão oficial dos fatos, evidenciando a dimensão comunitária do luto e o impacto simbólico do crime no carnaval de 1974.
Ao recuperar a trajetória de Soninha e contextualizar sua morte, este trabalho busca contribuir para o debate sobre violência de gênero, racismo estrutural e desvalorização da cultura popular em Curitiba, problematizando os mecanismos sociais que produzem tanto a morte física quanto o apagamento histórico de mulheres negras vinculadas ao samba.
Referências
Sueli Carneiro – biopoder e dispositivo de racialidade
Patricia Hill Collins – matriz de dominação
Djamila Ribeiro – lugar de fala