REDES DE PARENTESCO E REPRODUÇÃO DO PODER POLÍTICO: O PAPEL DAS MULHERES NAS DINÂMICAS FAMILIARES E PARTIDÁRIAS NA GUINÉ-BISSAU.

Evento: 14º Seminário Nacional de Sociologia e Política
Atividade/GT: GT 1 - Instituições e Poder: Parentescos e Genealogia
Atualizado em: 21/05/2026

Autoria
Autor(a): Daiana Fernando Mbunde
Coautores: Mônica Helena Harrich Silva Goulart
Resumo
As relações de familismo e parentesco configuram como elementos estruturantes na formação histórica, política e democrática da sociedade guineense. Desde o período pré-colonial até a consolidação do Estado independente, observa-se que a constituição da classe dominante tradicional esteve profundamente ancorada em redes familiares, alianças matrimoniais estratégicas e na transmissão intergeracional de diferentes formas de capital, econômico, social, político e simbólico. Tais mecanismos não apenas garantiram a permanência de determinados grupos no poder, como também moldaram as dinâmicas institucionais do Estado, evidenciando as ligações entre a estrutura familiar e o campo político.
Nesse contexto, as mulheres desempenharam papel central na manutenção e reprodução dessas redes de poder. Embora historicamente situadas em posições marcadas por normas patriarcais, sua inserção nas dinâmicas familiares mostra a estratégica para a consolidação de alianças políticas e para a ampliação do capital simbólico dos grupos dominantes. A participação feminina, muitas vezes mediada por vínculos de parentesco e obrigações matrimoniais, contribui para fortalecer sentimentos de pertencimento, lealdade e continuidade entre gerações, reforçando hierarquias sociais e mecanismo de controle político.
Perante esse cenário, a presente pesquisa investiga o papel social e político das mulheres na formação e na reprodução das alianças que estruturam o espaço de poder político na Guiné-Bissau. O recorte empírico contempla as mulheres eleitas deputadas da Nação pela Assembleia Nacional Popular (ANP), no período compreendido entre 1973, marco da proclamação de independência e as eleições legislativas de 2019. A delimitação temporal permite examinar continuidades e transformações nas trajetórias femininas ao longo do processo de institucionalização do sistema político guineense, bem como identificar padrões de acesso, permanência e circulação no campo legislativo.
Metodologicamente, o trabalho conta com o método prosopográfico, entendido como instrumento de análise coletiva a partir da sistematização de dados biográfico individuais. tal abordagem possibilita identificar regularidades quanto à origem social, vínculos familiares, formação educacional, inserção profissional e articulações políticas das deputadas, evidenciando como determinados capitais são mobilizados para viabilizar o ingresso e a permanência no espaço de poder. A prosopografia, ao articular dimensões estruturais e trajetórias individuais, contribui para compreender os mecanismos de reprodução das elites políticas sob a ótica de gênero.
O referencial teórico se fundamenta nas contribuições de Carlos Cardoso, Pierre Bourdieu, Ricardo Costa de Oliveira e Cande Monteiro, cujas abordagens permitem analisar a formação da classe dominante tradicional guineense e as estratégias de sua permanência no poder.
Referências
BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina; tradução de Maria Helena Kuhner. Rio de
janeiro: Beltrand Brasil, 1999.
BOURDIEU, Pierre. Escritos da educação. Petrópolis: Vozes, 2007.
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico; tradução de Fernando Tomaz (português de
Portugal). Rio de Janeiro: Beltrand Brasil, 1998.
BOURDIEU, Pierre. Questões de sociologia. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983.
BOURDIEU, Pierre. Razoes e práticas: Sobre a Teoria da ação. Campinas- SP: PAPIRUS,
1996.
CANDE MONTEIRO, Artemisa Odila. Guiné Portuguesa Versus Guiné-Bissau: A Luta da
Libertação Nacional e o Projeto de Construção do Estado Guineense. In: Salvador 2013.
CARDOSO, Carlos. A formação da elite política na Guiné-Bissau. 1.ed- Lisboa –Portugal
Centro de Estudos africanos (CEA) – 2002.
OLIVEIRA, Ricardo Costa de. Na Teia do Nepotismo: sociologia política das relações de
parentesco e poder político no Paraná e no Brasil. Curitiba: Ed. Insight, 2012.
OLIVEIRA, Ricardo Costa de. O silêncio das genealogias: classe dominante e estado no
Paraná (1853-1930). Tese. Doutorado em Sociologia. Universidade Estadual de Campinas,
2000.
OLIVEIRA, Ricardo Costa de; GOULART, Mônica Helena Harrich Silva (Orgs.). Família,
Política e Etnicidade. São Paulo: LiberArs, 2020. 399.
OLIVEIRA, Ricardo Costa de. Família, poder e riqueza: Redes Políticas no Paraná em
2007. Sociologias, Porto Alegre, ano 9, no 18, jun./dez. 2007, p. 150-169, 2007.