POLÍTICA NACIONAL DE JUSTIÇA RESTAURATIVA: AVALIAÇÃO DO SEU DESENHO POR MEIO DO MODELO LÓGICO.

Evento: 14º Seminário Nacional de Sociologia e Política
Atividade/GT: GT 9 - Violência, Segurança Pública e Justiça Criminal
Atualizado em: 21/05/2026

Autoria
Autor(a): Rayssa Pontarolo
Coautores: Augusta Pelinski Raiher
Resumo
Em um cenário atravessado por tensões políticas, disputas de narrativas sobre crime e punição e urgências democráticas, o debate sobre violência e justiça criminal tem sido capturado por soluções meramente punitivistas. Tal quadro revela um esgotamento estrutural marcado pelo encarceramento em massa e pela reprodução sistemática da violência.
Diante desse contexto, a superação da racionalidade punitiva demanda a imaginação de alternativas institucionalmente viáveis e socialmente comprometidas para o tratamento dos conflitos. É nesse horizonte que a Justiça Restaurativa (JR) desponta como uma “utopia possível”, propondo a reorientação da resposta estatal às violências a partir de princípios dialógicos, reparatórios e comunitários.
Com a institucionalização da Política Nacional de Justiça Restaurativa (PNJR) pela Resolução nº 225/2016 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Estado brasileiro sinalizou uma inflexão paradigmática. Entretanto, a transição desse horizonte normativo para uma práxis efetiva depende da consistência do desenho institucional da política. Assim, o presente trabalho objetiva avaliar a coerência interna da formulação da PNJR, examinando se os instrumentos concebidos são congruentes com o problema público diagnosticado e se possuem capacidade de sustentar, na prática, sua promessa transformadora.
Metodologicamente, trata-se de pesquisa qualitativa e documental, operacionalizada por meio da construção de um Modelo Lógico – conforme metodologia aplicada pelo IPEA - para explicitar a teoria do programa, mapeando insumos, atividades, produtos, resultados e impactos. O estudo dialoga com a literatura de policy design ao examinar o ajuste entre objetivos e instrumentos (policy design fit).
A análise sistematiza a PNJR em uma cadeia causal composta por: (i) insumos - marco normativo, infraestrutura, recursos metodológicos, equipes interdisciplinares e articulação em rede; (ii) atividades - formação continuada, institucionalização e gestão de núcleos, triagem de casos, realização de círculos e conferências e fomento comunitário; (iii) produtos - facilitadores certificados, núcleos em funcionamento, procedimentos conduzidos, acordos restaurativos e redes interinstitucionais; e (iv) resultados esperados - resolutividade qualificada, responsabilização ativa, desjudicialização de conflitos e mudança cultural no Judiciário, com impactos de longo prazo voltados à pacificação social, à eficiência do sistema de justiça e à potencial redução da reincidência.
Os resultados indicam robustez conceitual e coerência teórica da PNJR, alinhando-se às diretrizes internacionais de promoção da cultura de paz. Seu desenho normativo valoriza a participação ativa e comunitária como resposta às limitações do modelo retributivo e oferece uma arquitetura plausível para mitigar danos produzidos pela justiça penal tradicional, como a exclusão da vítima, a baixa reparação e a reprodução de ciclos de violência. Contudo, identificam-se fragilidades operacionais que tensionam a materialização dessa proposta, especialmente a ausência de indicadores padronizados e a incipiência de mecanismos institucionais permanentes de monitoramento.
Conclui-se que, embora teoricamente consistente, a PNJR enfrenta desafios de operacionalização. Para que a JR se consolide como política de Estado - e não apenas como horizonte normativo - torna-se imprescindível o fortalecimento de uma governança orientada por evidências, com institucionalização do monitoramento e padronização de registros. Sem esses aprimoramentos, há risco de que os objetivos da JR sejam progressivamente absorvidos pelo paradigma punitivo dominante.
Palavras-chave: Justiça Restaurativa; Violência e Controle Social; Avaliação de Políticas Públicas; Modelo Lógico.
Referências
BAQUEIRO, Fernanda Ravazzano L. Vencendo o ódio: a justiça restaurativa como resposta
necessária ao paradigma punitivista. In: SANTANA, Selma Pereira de; SANTOS, Ilison Dias
dos (Org.). Justiça restaurativa: um sistema jurídico-penal mais humano e democrático.
Salvador: UFBA, 2014.
BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Mapeamento dos Programas de Justiça
Restaurativa. CNJ – Brasília, 2025
BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Secretaria Nacional de Políticas Penais.
Reincidência Criminal no Brasil: relatório de pesquisa. Brasília: SENAPPEN, 2022.
Disponível em: https://www.gov.br/senappen/pt-br/assuntos/noticias/depen-divulga-relatorio-
previo-de-estudo-inedito-sobre-reincidencia-criminal-no-brasil/reincidencia-criminal-no-
brasil-2022.pdf. Acesso em: 20 nov. 2025
BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Cartilha Justiça Restaurativa. Brasília: CNJ, 2020.
BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Resolução nº 225, de 31 de maio de 2016. Dispõe
sobre a Política Nacional de Justiça Restaurativa no âmbito do Poder Judiciário.
BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Lançamento do “Pena Justa”: Plano Nacional para
o Enfrentamento do Estado de Coisas Inconstitucional nas Prisões Brasileiras. Discurso
do Ministro Luís Roberto Barroso. Brasília, 12 fev. 2025. Disponível em:
https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2025/02/12-02-2025-pena-justa-fala-efetiva.pdf.
Acesso em: 19 nov. 2025.
BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Manual de gestão de alternativas penais. Brasília:
CNJ, 2020
BRASIL. Conselho Nacional de Justiça. Relatório Justiça Restaurativa: Panorama
Nacional. Brasília: CNJ, 2022.
BRAITHWAITE, J. Restorative Justice and Responsive Regulation: the question of Evidence.
RegNeg Research Paper, Nº 51, (revised), Australian National University, Australia, 2016
CASSIOLATO, M.; FERREIRA, V.; GONZALEZ, R. Modelo Lógico: Uma ferramenta para
planejar e avaliar programas. Brasília: IPEA, 2009.
CANADIAN RESOURCE CENTRE FOR VICTIMS OF CRIME (CRCVC). Restorative
Justice in Canada: What Victims Should Know. Ottawa: CRCVC, 2022.
CASSIOLATO, M.; GUERESI, S. Como elaborar modelo lógico: roteiro para formular
programas e organizar avaliação. Nota Técnica nº 6. Brasília: IPEA, 2010.
22
CONSELHO NACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO (CNMP). Guia de Atuação
Resolutiva: Vol. 3 - Práticas Restaurativas. Brasília: CNMP, [s.d.].
INSTITUTO PARANAENSE DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL
(IPARDES). Manual de avaliação de políticas públicas. Curitiba: IPARDES, 2020.
JACCOUD, Mylène; Innovations pénales et justice réparatrice, Champ pénal/Penal field.
Séminaire Innovations Pénales, acesso em 20/11/2025
Disponível em:
https://www.researchgate.net/publication/50813331_Innovations_penales_et_justice_reparatri
ce
JANNUZZI, P. M. Avaliação de programas sociais: conceitos e referenciais de análise.
Campinas: Alínea, 2017.
LARSEN, Jacqueline Joudo. Restorative justice in the Australian criminal justice system.
AIC Reports: Research and Public Policy Series 127. Canberra: Australian Institute of
Criminology, 2014.
MACEDO, Maria Fernanda Soares, Rev. SJRJ, Rio de Janeiro, v. 20, n. 36, abr. 2013
MAXWELL, Gabrielle. A Justiça Restaurativa na Nova Zelândia. In: SLAKMON, Catherine;
DE VITTO, Renato Campos Pinto; GOMES PINTO, Renato Sócrates. (Orgs.) Justiça
Restaurativa. Coletânea de artigos. Brasília – DF: Ministério da Justiça e Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento – PNDU
MORAN, Katie L. Restorative Justice: A Look at Victim Offender Mediation Programs. 21st
Century Social Justice, v. 4, n. 1, 2017.
MORRIS, Allison; MAXWELL, Gabrielle. Restorative Justice in New Zealand: Family Group
Conferences as a Case Study. Western Criminology Review, v. 1, n. 1, 1998.
PALLAMOLLA, R. da P.; ACHUTTI, D. Justiça Criminal e Justiça Restaurativa:
possibilidades de ruptura com a lógica burocrática-retribucionista. Sistema Penal e Violência:
Revista Eletrônica da Faculdade de Direito. Programa de Pós-Graduação em Ciências
Criminais, PUC-RS, jan./jun. 2014.
PRANIS, Kay. Peacemaking Circles: From Crime to Community. St. Paul, MN: Living Justice
Press, 2005.
SECCHI, L. Políticas Públicas: conceitos, esquemas de análise, casos práticos. 2. ed. São
Paulo: Cengage Learning, 2014.
SOUZA, M. F. D., Modelo Lógico. CGIN/DECON/SENARC/SEDS/MC, 2019 Acesso em
21 nov. 2025.
Disponível em: https://repositorio.enap.gov.br/jspui/bitstream/1/4643/4/2019-11-26%20-
%20Modelo%20l%C3%B3gico.pdf
SOUZA, Claudia Maria Ferreira de; SALLES, Sergio de Souza. Sistema de justiça brasileiro:
Uma análise da litigiosidade e seus impactos no acesso à justiça. Lex Humana, v. 14, n. 1, p.
1-20, 2022
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO PARANÁ (TJPR). Núcleo Permanente de Métodos
Consensuais de Solução de Conflitos (NUPEMEC). Manual de Justiça Restaurativa.
Curitiba: TJPR, [s.d.].
23
UNITED NATIONS OFFICE ON DRUGS AND CRIME (UNODC). Manual sobre
Programas de Justiça Restaurativa. Série Manuais de Justiça Criminal. Nova York: Nações
Unidas, 2020.
VAN GEET, M. T. et al. Policy design fit: a new perspective on the effectiveness of public
policies. Policy Sciences, v. 54, n. 3, p. 593-618, 2021.
ZEHR, H. The Little Book of Restorative Justice. Intercourse, PA: Good Books, 2015.
ZEHR, H. Justiça Restaurativa. São Paulo: Palas Athena, 2012.
ZEHR, H. Trocando as lentes: um novo foco sobre o crime e a justiça. Tradução de Tônia Van
Acker. 3. ed. São Paulo: Palas Athena, 2018.