Juventudes políticas, hegemonia e reconfiguração do Estado na Argentina (2003–2025)

Evento: 14º Seminário Nacional de Sociologia e Política
Atividade/GT: GT 6 - Pensamento Político na América Latina
Atualizado em: 22/04/2026

Autoria
Autor(a): Anderson Sabino da Silva
Resumo
A presente comunicação de pesquisa decorre da investigação de doutorado em fase inicial, cujo objetivo é analisar a disputa entre La Cámpora e Juventud Libertaria não apenas como conflito entre projetos partidários, mas como manifestação concreta de um desgaste mais amplo das formas tradicionais de mediação política na Argentina. Argumenta-se que ambas as juventudes constituem formas distintas de produção de pensamento político sobre o Estado, operando como intelectuais que disputam direção moral e cultural na sociedade. Partindo da concepção gramsciana de hegemonia e estabelecendo um diálogo crítico com o debate sobre populismo na América Latina, sustenta-se que o Kirchnerismo, por meio de La Cámpora, buscou reconstruir a centralidade do Estado através da institucionalização da militância juvenil, convertendo-a em instrumento de consolidação hegemônica. Em contrapartida, a Juventud Libertaria aparece menos como simples oposição e mais como expressão do esgotamento dessa engenharia política anterior, mobilizando uma racionalidade antipolítica que combina ultraliberalismo econômico, moral conservadora e performatividade digital. Argumenta-se que o diferencial do fenômeno libertário não se limita ao seu programa econômico, mas reside na tentativa de tensionar e corroer o próprio princípio de mediação institucional, substituindo-o por uma política de confronto discursivo e desinstitucionalização do Estado. Nesse sentido, não representa apenas alternância ideológica, mas uma inflexão nas formas de construção da autoridade política. A pesquisa propõe realizar a análise de conteúdo de discursos públicos, materiais digitais e intervenções institucionais, buscando identificar como cada agrupamento constrói narrativas sobre liberdade, justiça social e soberania estatal. Parte-se da hipótese de que o confronto entre essas juventudes não indica uma simples substituição da militância territorial por formas digitais de mobilização, mas revela uma reconfiguração dos mecanismos clássicos de reprodução da hegemonia. Enquanto a Juventud Libertaria privilegia estratégias de viralização, choque discursivo e antagonismo performático como forma de tensionar e deslegitimar a mediação institucional, La Cámpora, embora também incorpore ferramentas digitais, mantém como eixo estruturante a organização territorial, a ocupação do espaço público e a militância presencial. De maneira preliminar, o que se observa, não é o desaparecimento da forma orgânica de construção política, mas a disputa entre distintos modos de produzir direção moral e intelectual na sociedade argentina contemporânea. Por hipótese, considera-se que a compreensão sobre a reconfiguração do Estado argentino no período analisado não pode ser reduzida a uma alternância entre esquerda e direita, mas deve ser percebida enquanto transformação estrutural das formas de legitimação política, na qual as juventudes operam como vetores estratégicos da reorganização do pensamento político latino-americano.
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