Resumo
A modernização agrícola e a difusão do agronegócio resultou em novas relações de consumo e produção que desencadearam profundas transformações das redes urbanas (Staback & Ferrera de Lima, 2023). Com efeito, este processo foi útil na liberação de mão de obra e na expansão da ocupação pioneira no interior do Brasil. Tal ocupação gerou novos mercados em regiões consideradas de baixa densidade demográfica até a década 1970. É a partir deste período que as cidades médias surgem como alternativas de difusão do crescimento econômico no país e como novas possibilidades de se encarar o fenômeno urbano. Elas nascem em decorrência da desconcentração industrial geográfica, da mobilidade da fronteira agrícola e dos investimentos em infraestrutura que integraram o interior do Brasil à dinâmica da economia nacional (Stamm et. al., 2013).
Denise Elias (2025) anuncia o surgimento de um tipo de cidade que vem ocupando lugares de destaque na rede urbana brasileira, denominadas de Redes Produtivas do Agronegócio (RPAs). Segundo a autora, as cidades de pequeno e médio porte são produtos da expansão e reestruturação produtiva da agropecuária, bem como da expansão da economia e da sociedade do agronegócio. De forma geral, são cidades do agronegócio porque são nelas que se materializam as condições gerais de reprodução do capital do agronegócio. Nas RPAs, de acordo com a autora, as relações campo-cidade são atravessadas por diversas naturezas, intensidades e complexidades, que concentram os fluxos de trabalhadores, agrotóxicos, capital agrícola, transporte etc., que evidenciam um enfraquecimento das dicotomias entre campo e cidade. É nas cidades do agronegócio onde residem os trabalhadores agrícolas não rurais, onde estão instaladas as agroindústrias, onde se encontram as lojas de máquinas agrícolas, onde são ofertados os serviços de consultoria e assistência técnica e, sobretudo, onde ocorrem as feiras agropecuárias.
Este trabalho possui o objetivo de apresentar elementos da história de Maringá, sua fundação e seu processo de urbanização, buscando evidenciar contrastes de uma cidade média, que ao mesmo tempo em que se anunciava como um projeto inovador, moderno e sustentável de urbanização, esteve atrelada às práticas e movimentos agrários. Nesse sentido, o trabalho busca posicionar o município como peça integrante das Redes Produtivas do Agronegócio, uma vez que foi fundado durante o ciclo da cafeicultura na região Norte do Paraná, integrado ao projeto promovido pelo executivo federal de ocupação capitalista de áreas consideradas de fronteira agrícola (Costa, 2003), que posteriormente foi cedendo espaço à soja, cana-de-açúcar, arroz e feijão, além de sediar uma das maiores cooperativas do agronegócio brasileiro, a COCAMAR (Dourado, 2003). Não ao acaso, o evento cultural de maior prestígio representado como "a cara do/a maringaense" de acordo com o Diagnóstico Cultural de Maringá é a Expoingá, tradicional feira agropecuária realizada anualmente na semana em que se celebra o aniversário da cidade, ressaltando a posição que o agronegócio ocupa no município (SEMUC, 2023).
Referências
COSTA, Simone Pereira. Estrada da vida: a organização do mundo dos rodeios no Brasil. 2003. Tese (Doutorado) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2003.
DOURADO, Simone Pereira da Costa. Cidade, cultura e modernidade: o que pensa o maringaense sobre o consumo cultural. In: TONELLA, Celene (org.). A política pública de cultura em Maringá. Maringá: Perfil, 2023. p. 12–35.
ELIAS, Denise. Agronegócio e urbanização dependente no Brasil. In: RIBEIRO, Luiz Cesar de Queiroz; DINIZ, Nelson (org.). A nova urbanização dependente no capitalismo rentista-neoextrativista. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2025.
MARINGÁ. Secretaria Municipal de Cultura (SEMUC). 1º Diagnóstico do Desenvolvimento da Cultura em Maringá: Relatório Final. Maringá: SEMUC/Observatório das Metrópoles (Núcleo UEM), 2023. Disponível em: http://www3.maringa.pr.gov.br/cultura/?cod=sismuc/15.
Staback, D. F., & Ferrera de Lima, J. (2023). Cidades médias brasileiras e sua convergência de crescimento e
desenvolvimento socioeconômico. urbe. Revista Brasileira de Gestão Urbana, v. 15, e20220054.
https://doi.org/10.1590/2175-3369.015.e20220054
STAMM, Cristiano et al. A população urbana e a difusão das cidades de porte médio no Brasil. Interações, Campo Grande, v. 14, n. 2, p. 251–265, jul./dez. 2013.