Resumo
Desde o final do século XX, o tema da participação de múltiplos atores na segurança tornou-se objeto de intenso debate na literatura criminológica e da Sociologia da Violência. Uma das vertentes desse debate é a participação comunitária na governança da segurança. Até o momento, as pesquisas que tratam desse fenômeno no Brasil se dedicaram a explicações sobre as formas como estas pessoas se organizam: as tecnologias, estratégias e capitais mobilizados, assim como as mentalidades que integram tais iniciativas. Os achados desses trabalhos indicam que os atores envolvidos nessas iniciativas percebem uma baixa capacidade do Estado em resolver seus problemas de segurança. Estes grupos apresentam um elevado nível de coesão e organização, e alta confiança interpessoal. Com base nesses achados, espera-se que a participação em iniciativas de segurança comunitária esteja associada tanto à percepção de baixa capacidade estatal quanto a níveis elevados de coesão social. Há, contudo, uma limitação na literatura: a capacidade de generalização de tais achados. Para identificar os determinantes gerais da participação em iniciativas de segurança comunitária no Brasil, esta pesquisa mobiliza dados do survey Barômetro das Américas de 2012, com uma amostra de 1.500 observações. Testamos os efeitos da desorganização social, confiança institucional, experiências de vitimização, percepção de insegurança e das variáveis sociodemográficas na participação em iniciativas de segurança comunitária. Foram empregadas regressão logística binária para testar os efeitos das variáveis independentes sobre a participação em iniciativas de segurança comunitária e análise fatorial confirmatória, em abordagem reflexiva, para a construção e validação dos construtos. Em nossa análise encontramos uma associação positiva entre a participação na segurança comunitária e o aumento da idade, experiências de vitimização vicária e pessoal e insegurança no bairro. Além disso, encontramos associação negativa entre ser branco e participar em tais iniciativas. Por outro lado, não encontramos associação entre a participação na segurança comunitária e as variáveis que indicam desorganização social e confiança institucional. Dessa forma, de maneira distinta ao que a literatura criminológica e sociológica tem apontado tanto no debate nacional e internacional, no Brasil a participação em iniciativas de segurança comunitária não está associada ao nível de organização de uma comunidade e nem à percepção dos atores de que o Estado tem pouca capacidade de promover segurança. Os resultados indicam que, no caso brasileiro, a participação em iniciativas de segurança comunitária é menos explicada por organização social ou desconfiança institucional, como sugere parte da literatura, e mais por dinâmicas associadas ao medo do crime, vitimização e marcadores sociodemográficos.
Referências
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