Este trabalho investiga a relação entre linguagem, práticas docentes e produção das desigualdades escolares, em diálogo com Pierre Bourdieu (2015; 2023a; 2023b), Basil Bernstein (1990) e Bernard Charlot (2000). Parte-se do pressuposto de que a etapa escolar da alfabetização não constitui apenas um processo de domínio técnico de aquisição da leitura e da escrita, mas um espaço de disputa simbólica no qual determinadas formas de linguagem são legitimadas como universais. Ancorada na perspectiva bourdieusiana, a análise compreende a linguagem como dimensão do capital cultural incorporado. O capital linguístico é entendido não apenas como recurso comunicativo, mas como marcador social que participa da conversão de diferenças culturais em desigualdades escolares. Se a escola legitima uma cultura específica como parâmetro de excelência, torna-se necessário examinar como essa legitimação se concretiza no cotidiano da sala de aula. Neste sentido, o estudo propõe um deslocamento analítico em relação a pesquisas que focalizam prioritariamente as práticas linguísticas dos estudantes. Em vez de interrogar o “déficit” dos estudantes com insucessos escolares, a investigação dirige o olhar para os/as professores/as alfabetizadores/as, pois no seu fazer diário docente, são eles/elas responsáveis por selecionar textos, organizar atividades, estabelecer critérios de correção e reforçar os usos da linguagem reconhecidos como adequados. A hipótese central sustenta que tais escolhas pedagógicas podem estar relacionadas ao volume e à forma de capital cultural incorporado pelos/as docentes, influenciando os modos de mediação da cultura escrita. O diálogo com Bernstein contribui para compreender que a escola tende a privilegiar formas discursivas próximas ao que ele chama de códigos elaborados, enquanto a interlocução com Charlot permite analisar a relação com o saber como prática social situada, atravessada por expectativas e rituais específicos. Ao articular esses referenciais, argumenta-se que a desigualdade escolar não se produz apenas nas condições socioeconômicas externas à escola, mas também nas dinâmicas simbólicas que estruturam a mediação pedagógica. Sem adotar uma perspectiva culpabilizadora, o trabalho tem por objetivo inscrever as práticas docentes no interior do campo educacional, compreendendo o habitus como princípio estruturado e estruturante das ações. Ao evidenciar que a alfabetização envolve critérios implícitos de legitimidade cultural, busca-se contribuir para o debate sociológico sobre os mecanismos simbólicos que sustentam a reprodução das desigualdades, apontando para a necessidade de problematizar, no âmbito das políticas e da formação docente, os pressupostos que orientam a definição do que é considerado linguagem legítima na escola.
Referências
BOURDIEU, Pierre. Escritos de educação. A escola conservadora: as desigualdades frente à escola e à cultura. Organização de Maria Alice Nogueira e Afrânio Catani. 16. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015. (Ciências Sociais da Educação).
BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean Claude. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. 8. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2023a.
BOURDIEU, Pierre. Sociologia geral. Vol. 3: As três formas de capital: curso no Collège de France (1983–1984). Tradução de Fábio Ribeiro. Petrópolis, RJ: Vozes, 2023b.
BERNSTEIN, Basil. A estruturação do discurso pedagógico: classe, códigos e controle. Petrópolis, RJ: Vozes, 1996. Cap. 3, “Códigos elaborados e códigos restritos: visão geral e críticas.
CHARLOT, Bernard. Práticas linguageiras e fracasso escolar. Estilos da Clínica, [S. l.], v. 5, n. 9, p. 124-133, 2000.