Querido colega, isso aí é capacitismo: percepções docentes e a dificuldade de nomear a exclusão na sala de aula

Evento: 14º Seminário Nacional de Sociologia e Política
Atividade/GT: GT 16 - Educação, Diversidades, Diferenças e Inclusão Social
Atualizado em: 21/05/2026

Autoria
Autor(a): Andrelina Aparecida Gonzaga Oliveira
Resumo
Este trabalho parte de uma situação vivenciada no cotidiano escolar, ocorrida durante uma conversa entre docentes sobre a “famosa” inclusão. No contexto, determinadas falas atribuíam a um estudante a incapacidade de “acompanhar” a turma, sugerindo que “aquele lugar não pertencia a ele” ou que “ali ninguém estava preparado”. Determinadas falas naquele ambiente eram recorrentes e eram percebidas até mesmo em algumas práticas docentes, revelando modos naturalizados de classificação e hierarquização de corpos e sujeitos. O silêncio que se instaurou após essas afirmações evidenciou não apenas desconforto, mas a ausência de um repertório consolidado para nomear aquele tipo de violência. Foi nesse momento que emergiu a fala que orienta este trabalho: “querido colega, isso aí é capacitismo”. A frase opera como uma chave para problematizar a dificuldade persistente de reconhecimento do capacitismo no espaço escolar. Este trabalho nasce dessa cena que para muitos é vista como banal, cotidiana e facilmente reconhecível. Ela visa tensionar aquilo que muitos ainda não sabem nomear. Se já incorporamos com segurança categorias como racismo, machismo ou homofobia ao vocabulário crítico e reflexivo escolar, o capacitismo ainda atravessa a sala de aula como uma presença invisível. O capacitismo se apresenta quase como régua que mede quem acompanha e quem atrasa, quem é autônomo e quem depende, quem produz e quem “dá trabalho”. A escola, espaço que se pretende ser inclusivo, continua organizada por expectativas normativas de corpo, tempo e desempenho. A diferença é tolerada desde que não desestabilize a lógica do rendimento, da produtividade, da disciplina e quando ela desestabiliza, se transforma em problema individual, em laudo, em código, em caso a ser administrado ou medicalizado. A inclusão é frequentemente reduzida à presença física ou à adequação burocrática, enquanto as hierarquias de capacidade permanecem intactas. Ao tomar a cena vivida como ponto de partida, este trabalho propõe deslocar o foco e pensar que a inclusão não começa no documento, mas começa no olhar. Precisamos compreender que inclusão começa na aprendizagem de enxergar para além dos olhos, perceber o outro não como déficit em relação a um padrão, mas como existência que tensiona o próprio padrão, é reconhecer que aquilo que chamamos de “limite” pode ser o limite da nossa pedagogia, da nossa imaginação sociológica, da nossa disposição ética. Pensar o capacitismo na escola é também reconhecer suas intersecções, produzindo camadas de exclusão que não se distribuem igualmente. Alguns corpos são rapidamente considerados incapazes. Algumas vozes são facilmente silenciadas. A dificuldade de identificar o capacitismo revela o quanto ainda estamos presos à ideia de que a desigualdade se manifesta apenas quando há ofensa explícita, e não quando há norma naturalizada. Este texto não pretende oferecer respostas prontas, mas provocar desconforto. Transformar uma conversa de sala dos professores em problema sociológico é um gesto político, pois o silencio não é neutro.
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