O presente relato de experiência sistematiza e analisa os desdobramentos de uma pesquisa-ação qualitativa realizada com quarenta e quatro discentes do Ensino Médio em uma escola da rede pública estadual localizada em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba. O território em questão é caracterizado por um denso polo industrial metal-mecânico, no âmbito industrial e comercial, com dois polos industriais bem definidos e nesse contexto no qual a construção da identidade do trabalhador é frequentemente instrumentalizada para o apagamento das tensões étnico-raciais e a persistente preservação do mito da democracia racial. A investigação centraliza o Rap como uma linguagem das juventudes periféricas que opera como práxis antirracista no ensino de sociologia, questionando a eficácia desse dispositivo artístico como leitura crítica da realidade social e como ferramenta de enfrentamento ao silenciamento institucional. A intervenção pedagógica foi organizada em três eixos sequenciais e complementares que buscaram integrar teoria e vivência. O primeiro momento consistiu em um diagnóstico coletivo por meio de uma nuvem de palavras, revelando categorias centrais como desigualdade, violência e resistência, que serviram de base para o debate sobre o racismo estrutural. O segundo eixo, centrado na escrita criativa, envolveu a formação estratégica de grupos para a elaboração de rimas sociológicas. Esta dinâmica coletiva revelou-se um espaço de profunda solidariedade, onde o diálogo interpessoal permitiu que os estudantes transpusessem angústias internas para construções líricas altamente críticas. A experiência demonstrou que o trabalho em grupo fomentou um sentimento de pertencimento ao conhecimento, no qual os discentes se perceberam como sujeitos epistêmicos capazes de narrar sua própria história. O terceiro momento utilizou a inteligência artificial generativa Suno para musicalizar essas criações, conferindo autonomia estética e materialidade às vozes discentes. A fundamentação teórica estabelece um diálogo entre a Pretagogia de Petit (2015) e as reflexões de Hooks (2019) na obra Irmãs do Inhame. Para Petit (2015), a valorização da oralidade e da circularidade pedagógica é o pilar para o reconhecimento das identidades negras silenciadas. Paralelamente, conforme Hooks (2019), a emersão da voz e a escrita autoral em comunidade constituem processos de cura e autorrecuperação frente ao trauma histórico imposto pela branquitude. A análise das letras, que denunciam a “sociedade de mentiras” e o “açoite cotidiano”, demonstra que o ato de rimar coletivamente descoloniza o imaginário e fortalece os laços de afeto. Os resultados indicam que a produção estética mediada pela tecnologia fomentou reflexões críticas sobre desigualdade estrutural, possibilitando a emersão de subjetividades insurgentes que conseguiram expor conteúdos subjetivos antes silenciados. Conclui-se que a integração entre a cultura Hip Hop e as tecnologias generativas ressignifica a experiência escolar, transformando a sala de aula em um quilombo pedagógico de reexistência e afirmação plena da vida negra.
Palavras-chave: Ensino de Sociologia; Rap; Pretagogia; Pesquisa-ação; Educação Antirracista.
Referências
HOOKS, bell. Irmãs do inhame: mulheres negras e autorrecuperação. São Paulo: Elefante, 2019.
PETIT, Sandra Haydée. Pretagogia: pertencimento, corpo-em-balanço e instituições de tradição de matriz africana. Fortaleza: Edições UFC, 2015.
THIOLLENT, Michel. Metodologia da pesquisa-ação. 18. ed. São Paulo: Cortez, 2011.
BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira". Brasília, DF: Presidência da República, 2003.
SUNO AI. Suno. Versão 3.5.:Suno AI, 2024. Disponível em: https://www.suno.com. Acesso em: 10 jan. 2026